Passou ao lado do tocador de órgão que recebia
moedas em um quepe cáqui, estendido ao público pela mão esquerda. A música do
realejo ecoava pela Avenida 16 de Setembro, juntando-se a tantas outras canções
que se misturam pelos ares da cidade. Uma metrópole movimentada pelos mesmos
rostos morenos, passando pelas mesmas ruas, cheias de casacos em pleno outono
abafado. Havia quase ninguém no interior das lojas, que raramente anunciavam
promoções. A 16 de setembro desembocava no Zócalo, uma praça imensa, histórica,
cheia de patrimônios e multicultural. Uma bandeira enorme do país flanava
vagarosamente em seu centro. Esticada à direita, como se o vento a segurasse em
suas pontas, exibindo-a aos visitantes.
Um campo aberto, com muitas vozes, crianças
correndo, pessoas tirando fotos com a catedral ao fundo, com seus sinos pesados
anunciando celebrações. Lá dentro, o Senhor do Veneno olhava cabisbaixo,
crucificado e negro, todos os passantes, todos os pedintes, todos os puros e
impuros que chegavam. Paolo Demétrio era um deles. Sentou-se na ponta do último
banco da fileira central. Ao fundo e ao redor, vários pontos amarelos
bruxuleavam o fogo da fé que derrete a cera. Nunca havia acendido uma vela
durante sua imagem em nenhuma das inúmeras igrejas da cidade imensamente
católica. Colonizada e liberta há séculos, mas cristalizada nos costumes
antigos. Uma foto presa eternamente em um álbum.
Não prestava atenção alguma nos sermões.
Sentava em bancos de igrejas para pensar na vida que havia deixado para trás,
percorrendo alguns países da América Latina, do sul ao norte. Estava na Cidade
do México há quase dois anos. Ainda se sentia um turista. Às vezes, um
nativo. Muitas vezes, cidadão de lugar algum. Não planejara as mudanças em sua
vida. Elas aconteceram sem que ele tomasse as rédeas. Viveu anos na Argentina,
depois uma temporada na Colômbia, uma rápida estada na Guatemala, e depois
desaguara no México, com vistas a morar nos Estados Unidos. Propagar sua arte
não era fácil. Teve bons momentos assim que saiu do Brasil. Participou de
exposições em Buenos Aires e Mendoza. Foi para o Chile, Uruguai e Bolívia,
através de preciosos convites. Suas esculturas eram únicas, criativas e
desconcertantes. Ganhou dinheiro, mas não necessariamente fama. Era reconhecido
sim. Mas um tipo de reconhecimento que não ultrapassava os limites de uma
redoma que parecia persegui-lo. Era aclamado apenas onde mostrava a arte,
temporariamente. Depois era esquecido ali, partindo para outro cenário.
Raramente os convites se repetiam. Não podia reclamar do que recebia. Paolo
Demétrio tinha uma vida confortável, que não imaginava ter um dia quando começou
a fazer arte, com o que ninguém usava mais, em uma garagem velha de um bairro
desértico. A vida foi e estava sendo generosa com ele. Lembrou-se da metrópole
onde vivera no Brasil. Tinha ainda amigos por lá, com quem mantinha contato
constantemente. Não pisava no país há anos. Quem sabe não seria o momento? Não
pensava em se instalar novamente de maneira definitiva. Aliás, “definitivo” não
faz parte da personalidade de Paolo Demétrio, um homem sem raízes profundas,
etéreo e de trilhos sem rumo. Talvez fosse a grande oportunidade de recuperar a
imaginação, que andava meio perdida ultimamente. Queria novas inspirações.
Voltar às origens é sempre algo vendável. Quando a fonte seca, é o momento de
fazer as malas e pular o muro. A filosofia de vida perfeita para um artista
considerado desconcertante. Mas Paolo Demétrio não é saudosista. É pós-moderno.
Bebe em fontes distintas de inspiração. Ama localismos. Revisita tradições
descolando-as de seu tempo-espaço. Mistura tendências. Faz porque gosta e
admira os rendimentos possíveis. Primeiro vem a arte, depois imagina cifrões.
Paolo Demétrio sempre obtinha respostas
quando entrava em igrejas no México. Levantou-se do banco, não se sabe em que
parte do sermão. As velas ainda continuavam brilhantes por todos os lados,
dentro de seus copinhos de vidro que seriam recolhidos e reciclados,
tornando-se novamente outros copinhos para velas que ardiam em fé interminável.
Passou diante do Senhor do Veneno. Venerou-o, então, porque todos o faziam
antes de sair.
*trecho do romance que escrevo
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