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Úrsula da sapataria

Na sapataria, que completou trinta anos de existência no mês passado, Úrsula remenda o couro de uma bota de cano longo, enquanto o marido atende os clientes. Na semana passada, uma pessoa escreveu na madeira do balcão as iniciais UJ com caneta esferográfica sem que ele visse. Uma pena, pois o balcão também completou trinta anos no mês passado. Alguns arranhões podiam ser vistos, mas as iniciais UJ a desagradaram muito. Seriam difíceis de ser removidas. Depois do último ponto dado à bota, Úrsula continuou sentada à máquina de costura. Uniu em sua frente o par de botas negras e pensou na provável aparência de sua dona. O salto era enorme e fino. Nunca havia usado um salto desses em seus cinquenta e nove anos de vida. Eram botas para uma ocasião especial, mesmo que precisassem ainda de uma boa engraxada. O Olavo, que trabalha de engraxate na esquina da Amoreiras com a Júlio Pereira, com sua caixa de madeira incrementada, daria um jeito perfeito nelas. Sendo sua dona, calçaria o par com um vestido azul marinho na altura dos joelhos. Ornaria o pulso direito com um bracelete grosso dourado. Nas orelhas, brincos de zircônias reluzentes. As mesmas zircônias estariam em um colar majestoso, bem próximo ao pescoço. Se estivesse frio, um xale negro completaria a composição.
Andaria calmamente do táxi até a entrada do teatro, carregando uma carteira negra, com discretos detalhes dourados, na mão esquerda. Passaria levemente a mão direita sobre o corrimão dourado da escadaria coberta por um tapete vermelho. Um friso, também dourado, prenderia o tapete a cada degrau. A noite estaria estrelada e fresca. Sozinha, buscaria o assento marcado no bilhete. A peça encenada no dia seria Rei Lear, de Shakespeare. Desde criança, sonhava em assistir a uma obra de Shakespeare. À sua volta, mulheres trajariam vestidos longos, peles ao redor do pescoço e sapatos de salto de vários estilos. Poderia sentir-se um pouco deslocada com seu vestido curto azul marinho. Mas logo depois deixaria os pensamentos nebulosos de lado. Tinha o direito de sair de casa usando o que bem entendesse. O ingresso estaria honestamente pago. Aproveitaria ao máximo todos os atos depois cada abertura da longa cortina vermelha no palco.
Terminada a peça, abandonaria calmamente o assento. Já a ponto de descer as escadas, um cavalheiro a interpelaria sobre seu nome, pois tinha a sensação de conhecê-la de algum lugar. Ela responderia Úrsula. Seu sobrenome era Jacobine. Úrsula Jacobine. O cavalheiro a deixaria no pé da escada, beijando-lhe a mão contrária da que segurava a carteira. Um engano, decerto, confundindo-a com outra pessoa. Chamaria o táxi de volta para casa. Moraria só em uma casa ampla e confortável em um bairro residencial da cidade. Um vento leve sopraria em seus cabelos claros, soltos e bem escovados.
As botas precisariam de uma boa engraxada. Olavo daria conta. Recomendaria seu serviço à dona da bota. O marido havia abandonado o balcão para tomar o café da tarde. Atendendo a senhora que queria trocar os botões de uma jaqueta cinza, ela passa os olhos sobre as iniciais UJ, escritas em caneta esferográfica. Sorri com o canto dos lábios, tendo nos olhos o brilho das zircônias usadas por Úrsula Jacobine.

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