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Nunca mais

Dentro dos olhos azuis do estrangeiro eu vi algumas pontas de dúvidas na cor castanha. Dúvidas possuem cores que não definimos bem como são. Tenho dúvidas sobre as cores das dúvidas. Mas isso não importa. Ele queria saber como se chegava à estação de metrô da Sé. Eu havia impresso o mapa e levado comigo, apesar de precisar percorrer poucas estações até São Bento. Dentro dos olhos dele, algumas dúvidas se apagaram depois de dar uma olhada no meu mapa. Continuou atrás de mim, na fila da compra dos bilhetes, e não perguntou mais nada em seu português embolado com espanhol. Demoramos muito nessa tal fila. Ele se interessou por livros baratos na vending machine, mas não comprou nenhum. Nem eu, pois o único que valia alguma coisa em termos literários era o Ateneu, de Raul Pompeia, que já li da biblioteca.
Compramos o bilhete e eu não tinha moedas para ajudar no troco, uma vergonha. Tudo bem, dois anos sem ir a São Paulo. Olhando para o guichê ao lado, o estrangeiro ainda guardava o troco no bolso. E é nessas horas que me lembro dos mistérios do "nunca mais". Nunca mais verei o estrangeiro. Nossos olhos não se cruzarão nunca mais. E o que importa? Não o conheço. E penso mais duas vezes nos mistérios do "nunca mais". Embarco no vagão. Tento me segurar, porque sei que o trem se moverá dando arrancos. Mais ou menos lotado. Um pouco antes do sinal que a porta se fechará, entra o estrangeiro no mesmo vagão onde estou. Me passa um meio sorriso, afinal, somos conhecidos recentes. Pequenos amigos de informação do metrô. Ele comenta que a fila da bilheteria demorou. A cidade não para e o trem parte. 
Uma estação. Duas estações. Três estações. É cedo e não sou de conversar muito durante a manhã. Acabou a conversa com o estrangeiro, que ficou mais ou menos ao meu lado durante a viagem curta. Quando anunciaram a estação de São Bento, pensei novamente nos mistérios do "nunca mais". Desceria ali. E o estrangeiro? Não, ele seguiu viagem pelos trilhos emaranhados de São Paulo. Nunca mais o vi. Pelo menos até aqui. Mistérios do "nunca mais". 
Pelas ruas de São Paulo - percorri poucas porque a viagem foi curta - vi muita gente. E para quem vem das montanhas, mar de gente é poesia. Vi muitos coreanos. Coreanos e mais coreanos. Comprei, conversei, pedi informações. Gente, muita gente. E no final, lembro-me das dúvidas castanhas do estrangeiro. Sanei algumas. Segui a longa viagem de volta e penso novamente nos mistérios do "nunca mais", mas agora sem a força de antes.

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