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A roda gigante do Parque Finlândia


Enorme e inconfundível. Uma roda gigante abandonada nos arredores da cidade. Pertencia ao extinto parque Finlândia, que depois de uma longa temporada se foi, deixando para trás o brinquedo ocupador de espaço. Catorze cadeiras se equilibrando no metal corroído. Na verdade, duas cadeiras já haviam caído. Agora eram pequeninos escombros ao chão engolidos pelo mato crescente. Roda da fortuna amaldiçoada por girar sem chegar a lugar algum.
Os poucos habitantes da cidade agora a olham com desprezo. No começo de tudo, era atração bizarra, alvo de comentário, peça a ser consertada, estorvo a ser demolido. Agora não passava de estátua, testemunhando as nuvens que passam e às vezes gotejam. Há vinte anos, quando o parque Finlândia foi inaugurado, era promessa de turistas e empregos para a cidade minúscula. Uma renovação para os ares viciados. Na verdade, nunca passou de atração pequena. No dia da inauguração, uma cigana contou para Georgina que a roda gigante trazia péssimas vibrações. A cigana era uma velha moradora que colocava cartas da sorte para os mais ansiosos. Ela não gostava do número catorze. Era a carta da raposa. Sutileza, cautela. Qualquer passo em falso e a âncora se desprenderia do fundo do mar. Era uma cigana que não usava vestido, nem tinha dente de ouro. Mas suas cartas quase sempre não falhavam. A casa, a espada, o coração, o livro.
O catorze da raposa não saiu mais do coração de Georgina. Franzina, de sobrancelhas grossas e cabelos com franja. Frequentava muito a casa da cigana. Coração sempre palpitando, com medo da vida, da chuvinha da noite. Quando o parque Finlândia foi inaugurado, não pensou em mais emprego ou em mais turistas. Pensou em arrumar um grande amor, sentada na cadeirinha apertada da roda gigante. Ela ficaria com medo e ele seguraria com força sua mão. Medinho da altura, de cair, de ficar com o coração bambinho para sempre. Georgina tinha calafrio de tudo. A cigana uma vez lhe contou que iria operar dos rins. Dos dois. De tão apavorada Georgina teve cólicas de rolar no chão. Mas não viu bisturi. Só muito chá de quebra-pedra e licença do trabalho como ajudante no salão de beleza. No dia de comprar os ingressos e se divertir no parque como todo mundo, teve medo da chuvinha da noite. Debaixo do cobertor, sonhou a noite inteira com o rapaz que a salvaria do pavor na roda gigante. Passaram-se os anos e ela nunca esteve em nenhum dos catorze assentos.
Em um dia daqueles com as cartas da cigana, querendo saber de amor, aflitinha do coração, apareceu a carta catorze, da raposa. Indicava pequenas frustrações no amor. Era preciso estratégia para vencer. Ser sorrateira e ter olhos espertos de raposa. Georgina não nasceu para ser raposa. Era borboletinha fraca, de poucos dias de vida. E ficou com a raposa na cabeça por semanas, talvez a vida inteira. Ela sabia que a cigana não gostava do catorze. E eram catorze as cadeirinhas da roda gigante. Quando a noite chegava não pensava mais no príncipe que a abraçava dos perigos da roda da fortuna. Ficou dias a rezar até adormecer. Até sonhar com a roda que chegou sem avisos. Girava lentamente cada cadeira rumo ao céu. Ela sentada, de vestido verde longo, ao lado dele, com roupa elegante de dia de festa. Em meio ao passeio o brinquedo enguiçara. Todos começaram a gritar feitos loucos. Uma fumaça espessa subiu pela engrenagem. Georgina se sufocou, a cadeira se desprendeu e acordou paraplégica em um hospital distante. A roda gigante tinha dezesseis cadeiras. Ela contara bem. Dezesseis. Não se lembrava, após acordar do pesadelo, qual era a carta dezesseis da cigana. Precisou tomar muitas xícaras de café para reativar a memória. E não conseguiu. De manhã, bem cedo, a borboletinha que não queria ser raposa perguntou à cigana qual era a carta dezesseis, que custou desembuchar que era a carta das estrelas, da felicidade, da recompensa, da iluminação espiritual. Georgina a agradeceu e virou as costas. Não podia ser um número de sorte se estava num pesadelo tão ruim. Estava confusa. Depois de muito pensar no catorze, na raposa, no dezesseis, nas estrelas, no príncipe, no parque Finlândia, decidiu que nunca andaria em uma roda gigante por toda sua vida. E Georgina não pôde espalhar a decisão à família porque vivia sozinha. Espalhou aos vizinhos. Para todos da rua. A cada um dizia que a roda gigante tinha um defeito misterioso, que era melhor ninguém andar no brinquedo. Escondeu a razão verdadeira dos números, das cartas, do pesadelo. A cigana desconfiava. E todos ficaram sabendo o que Georgina tinha para avisar. Já nem procurava a cigana, com tantos avisos a dar. A cidade inteira considerou Georgina uma louca. Mas todos que frequentavam o parque Finlândia, que já não eram mais tantos assim, não compravam bilhetes para a roda iluminada na noite com lâmpadas quentes. Gente espalhada por todos os brinquedos, e apenas um ou outro aventureiro nas catorze cadeiras a girar sem destino. Georgina observava de longe, da janela de casa. Não demorou muito para que o administrador do parque soubesse do que a louca espalhara. Não quis saber quem era Georgina. Era um absurdo a notícia da roda gigante com defeito. E um absurdo maior a população da pequenina cidade acreditar.
O parque minguava a cada dia. Não foi sucesso de empregos, nem de turismo. Nem a montanha russa de porte moderado atraía mais gritadores de plantão. À noite, o cenário era sempre de brinquedos com poucos frequentadores, e a roda monstruosa a girar sem passageiros. Já levava cinco lâmpadas queimadas. Começaram a espalhar boatos que fantasmas frequentavam suas catorze cadeiras. Eles se divertiam, abrindo suas bocarras, gritando no meio da noite. Não faltou quem escutasse e se arrepiasse. O administrador do Finlândia começava a acreditar nas histórias terríveis. Até uma das catorze cadeiras despencar lá do alto, levantando poeira no chão.
O parque resolveu fechar a bilheteria. Mudou de cidade, deixando para trás o monstro redondo de engrenagens. Suas luzes queimaram uma a uma depois de sete meses de abandono. Georgina ainda a olhava, vinte anos depois, de sua janela. A cigana, já velhinha e corcunda, ainda era boa nas cartas. Hoje, Georgina está com sorte. Tirou a carta vinte. Indicava um relacionamento cheio de prazer e reciprocidade. E uma roda gigante com vinte cadeiras era feito quase impossível.



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