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Flores amarelas - o mais lido do blog; publicado em 2014 no Relevo, jornal literário paranaense

Debruçados em meia parede de concreto, vemos lá embaixo flores amarelas como se fossem girassóis miúdos. Abelhas enormes as sobrevoam e, observando o pôr-do-sol no horizonte, falávamos de morte. A luz amarelada, acompanhada das flores vangoghianas, nos estalava vida diante de nossos narizes. Mas falávamos dos mortos. Lembrávamos dos mortos. Todos se vão sem levar um alfinete de suas gavetas. O sol nasce no dia seguinte a despeito dos mortos. Já é outono e tiramos aquela tarde para falar dos mortos, com o coração revirado e os olhos secos. Lembranças sem dramas. Porque não gostamos de chorar o inevitável.
Na estação seguinte, as flores amarelas murcharão da noite para o dia. Parecem que são tocadas por forças malignas. Tornam-se galhos marrons retorcidos. As abelhas fogem. O verde à volta dos bambuzais dá adeus. As flores selvagens somem. Talvez apareçam meses depois. Mas durante a morte da estação, preferimos falar de vida, para compensar o calor morno das vísceras do sol. Os mortos permaneceriam enterrados por um tempo.
Sempre tivemos medo de abelhas e seus ferrões. Suas toxinas fatais. Observamos seu trabalho do alto da meia parede de concreto, nossa fortaleza. Nossas vozes sobre a morte não as alcançariam. Abelhas se entregam ao fim da vida com facilidade. Mas isso não é verdadeiro para nós. Quando as vozes se calam, seus zumbidos ressoam.
Às cinco e meia, o sol se põe no outono e enegrece o amarelado das pétalas. Algumas abelhas já se foram. Os mortos se foram há muito tempo. Na língua resta um salobro de quem fala sobre quem não voltará mais. No dia seguinte, talvez voltemos à meia parede de concreto para observar o tempo. Porque embora as flores murchem, nossos olhos permanecem secos e nossos corações revirados de lembranças. Ainda que as flores murchem, o sol sempre estará diante de nossos narizes, estalando vida. Sobre a meia parede de concreto, conversaremos nossos segredos. As abelhas nunca nos entenderão.

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