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Um resumo do problema de Corbélia

Subindo as escadarias estreitas do edifício Antoine, Corbélia carrega um pacote pesado. Ela sabe o que o embrulho contém. E que tem que entregá-lo no apartamento 302, aos cuidados de Estephania e que só pode deixá-lo nas mãos dela. Quem pediu a tarefa foi o seu melhor amigo, Afonso. Enquanto subia os degraus, já quase sem fôlego, se perguntava por que o próprio Afonso não deveria entregar aqueles livros pesados, tão bem embalados. Ele morava perto do Antoine, inclusive. Na pressa de fazer logo o favor a ele, já que ela devia mil e um e outros mais a ele, nem havia perguntado sobre isso. Era melhor entregar tudo e voltar depressa pra casa, porque um temporal estava a caminho.
Tocou a campainha do 302 por três vezes. Uma mulher alta, de olhos castanhos, atendeu a porta com ares sonolentos. Corbélia lhe disse boa tarde e estendeu o pacote para a moça, dizendo que era entrega do Afonso Lugares.
- Eu não conheço nenhum Afonso Lugares!
- Mas aqui não é o 302?
- Sim.
- Não é o edifício Antoine?
- Sim.
- Você não se chama Estephania. Com ph, como está escrito aqui no pacote?
- Sim.
- Então o pacote é pra você! - concluiu Corbélia, empurrando o embrulho para as mãos da mulher.
- Não, não é! - insistiu Estephania, empurrando pacote e Corbélia para fora da porta.
A porta é fechada e, antes disso, Corbélia ainda tinha conseguido ver na tela da TV da sala um close em seu ator favorito na novela em reprise da tarde. Pensou em ir embora e devolver o embrulho para Afonso que havia se enganado feio no endereço da entrega. Ou no nome da moça? Mas Estephania com ph não existe muito por aí. As ligações pelo celular para o amigo só caíam na caixa postal. Já podia ouvir os primeiros pingos da chuva estalando na janela do corredor do prédio. Tudo estava cinza do lado de fora. Sem pensar muito, deixou o pacote na soleira da porta da moça. Ligaria depois para Afonso e explicaria tudo. Mesmo achando um engano, Estephania recolheria a encomenda, cedo ou tarde, por  curiosidade. Resolvido. Era isso.
Já no fim da tarde, Corbélia consegue entrar em contato o amigo.
- Mas a mulher disse que não te conhecia.
- Como assim? Nos conhecemos há três meses.
- Ela disse que não conhecia nenhum Afonso Lugares.
- Mas esse foi o nome que disse à ela. Você sabe que, na verdade, me chamo Raimundo Afonso, mas sempre digo que me chamo Afonso pra todo mundo.
- Pois é. Mas agora tá feito.
- E se ela não recolher os livros, Corbélia? São edições únicas que encontrei em um sebo muito longe daqui da cidade.
- Com certeza ela recolherá o embrulho.
- Como você tem certeza?
- Porque toda mulher é curiosa, ora! E por que você mesmo não entregou a droga do pacote?
- Porque eu queria fazer uma surpresa!
Corbélia podia ouvir a respiração aflita de Afonso no outro lado da linha. Queria ajudá-lo de alguma maneira. Mas ele também tinha culpa de ter dado uma tarefa tão difícil pra ela. Até agora não tinha entendido nada sobre o engano da entrega. Será que existiam dois edifícios Antoine na cidade?
- Não, Corbélia! Não há dois edifícios com esse nome nesta cidade que é um ovo! Você precisa voltar lá, tocar a campainha e perguntar se Estephania pegou o pacote.
- Ok - concordou Corbélia, vencida. Afinal, devia mil e um favores e outros mais ao amigo Afonso. Na presteza de favores, ela perdia feio nos pratos fiéis da balança. O jeito era voltar.
Tocou a campainha do 302, no início da noite. O pacote não estava mais do lado de fora. Estephania atendeu, agora sem cara de sono.
- Ué! Você de novo?
- É só pra saber se você pegou os livros que eu deixei aqui do lado de fora da sua porta.
- Livros?
"Xiii", pensou Corbélia, "estraguei a surpresa".
- Sim, um pacote fechado com papel pardo. Tinha o seu nome escrito nele.
- Eu não vi nenhum pacote. Não abri a porta pra mais ninguém depois que você se foi.
"Putz! Lascou!"
- Ok. Até mais, então. Obrigada.
Antes que a porta se fechasse, Corbélia notou que a TV da sala de Estephania estava desligada. Na janela do corredor não estalavam pingos de chuva. E o pacote estava agora perdido nas mãos de um desconhecido. Pensou ligar para Afonso e contar a tragédia. Mas uma tragédia deve ser contada tête- à-tête. Não. Tragédias não devem ser contadas. O jeito era buscar o pacote, até o fim do mundo. Devia mil e um favores e outros mais ao amigo.
Tocaria as campainhas de todos os apartamentos, do 101 ao 405. Depois perguntaria sobre o pacote nos arredores do prédio. A rua era pequena e podia perguntar o mesmo em todas as casas, inclusive nas ruas próximas. Na manhã seguinte, perguntaria informações ao carteiro e a qualquer pessoa que tivesse o hábito de circular pelo prédio. Até lá, não contaria nada a Afonso. Devia tantos favores a ele.
Um trovão enorme tremeu no céu e a luz do poste mais próximo se apagou. A noite seria longa para Corbélia. "Amizades são nosso bem mais precioso, A família que a gente escolhe. Os anjos que nos protegem." Entrou de novo no prédio e tocou a campainha do 101. Outro trovão estourou, ressoando pelo corredor do prédio. O morador que atendia Corbélia nem ouviu o que ela dizia, atrás da porta entreaberta.

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