Pular para o conteúdo principal

Adélia se prepara para mais um ano vindouro

Adélia se prepara para mais um ano vindouro. Na verdade, não há muita preparação. Na virada do ano, não usará roupas brancas, da sorte, ou roupas amarelas, do dinheiro. Provavelmente, estará em casa, com os chinelos velhos de sempre. Nada de uvas ou lentilhas. Nem pulará sete ondas, porque mora a quilômetros do mar. Adélia não é ligada a simpatias. Não é de crendices populares. A passagem do ano é uma folha de calendário que vira.
Neste ano que termina, Adélia conclui que sua vida não saiu muito do lugar. Dos propósitos estabelecidos, ela não cumpriu nenhum. Continua fumando cigarros vendidos nas embalagens de cor azul brilhante. Não fez nenhum curso importante, porque diplomas na parede estão fora de moda e dentro das gavetas ocupam espaço. Não trabalhou em um restaurante chinês, lavando pratos. Aliás, ela nem entrou lá para ver se tinha emprego disponível. Não teve grana para jantar lá nenhuma vez as suas sopas com legumes boiando, seus brotos sem gosto e seus pequenos pedaços de frango com mel.
Durante o ano, raros foram os encontros com os amigos. Raríssimos. Um apenas. Com um antigo colega da faculdade com viagem marcada pro Japão.  Estudaria seis meses por lá um curso que Adélia não memorizou o nome. Estava cansada, como de costume. Bocejou na frente do amigo umas seis vezes.  Deve ter causado uma péssima impressão. Depois disso, nenhum convite chegou a Adélia. O amigo voltou do outro lado do mundo e nem a procurou para contar as novidades. Ela também ficou na dela. Odeia incomodar a rotina alheia.
Com essa história de Japão, se lembrou do propósito que tinha de se casar com um chinês, lá do restaurante, e quem sabe um dia conhecer Pequim. Mal foi a Taubaté, cidade bem próxima, a pouquíssimos quilômetros.
Adélia não termina este ano triste, com lágrimas nos olhos. Termina fazendo novos propósitos, apesar de não tirar os sapatos velhos dos pés e de não acreditar em simpatias. Continuará fumando, guardando alguns rancores e encharcando vários panos de prato na hora de fazer um almoço simples, de arroz com ovo frito. Fritará os miolos pensando no futuro, esse aquário imóvel e incorruptível. Pra não dizer carro velho com rodas arriadas. Para o próximo ano, ela deseja que o barco role naturalmente. Obstinação não combina com ela. Não espera por meses brilhantes, como o azul do papel do maço de cigarros. Adélia não sabe bem o que quer, apesar de inventar propósitos a serem cumpridos no ano que chegará. E quem não sabe o que quer acaba não chegando a lugar algum. Talvez esse seja o grande mal de Adélia. Se ela seguisse os conselhos de Sêneca, sairia um pouco do lugar. Mas Adélia não é chegada em livros, assim como não é chegada em simpatias. E assim o tempo vai passando.

Mas não vamos encostar Adélia na parede. Quem cumpre todos os seus propósitos de ano novo? Você conseguiu ou falhou? Eram promessas nobres ou bobagens que podem ser executadas em qualquer época do ano? Eu gosto quando Adélia se debruça na janela da varanda, em seu apartamento no quinto andar, pensando na vida e nos 365 dias que virão. No clarão dos fogos da virada, eu vejo que seu rosto tem um ar de confiança. Ou de desdém. Mas eu gosto de Adélia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.