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Mensagem na garrafa

Clarita acordou decidida a colocar uma mensagem em uma garrafa e lançá-la ao mar assim que pudesse ir à praia no final de semana. Sempre sonhara com isso desde a infância e os adiamentos estavam incomodando-a há um tempo. Por que adiar algo tão simples? A ideia era escrever uma frase legal e inspiradora, à mão mesmo, em um pedaço de papel, qualquer tipo de papel, enrolar no formato de um canudinho, enfiar no gargalo de uma garrafa pequena e atirar nas águas salgadas, sem dó sem piedade. O fato de um estranho, talvez lá do Havaí ou do Alasca, abrir a garrafa e ler algo vindo de tão distante a fascinava. Porque, quando criança, Clarita perdeu as contas de quantas vezes ficava na areia, durante uma tarde inteira, esperando uma garrafa sair das espumas e rolar aos seus pés salgados. O conteúdo da garrafa não importava. Seu encantamento consistia em ser a eleita, a sortuda, a escolhida entre milhares para tirar a rolha de um recipiente que poderia ter viajado desde o Japão.
A garrafa estava bem à sua frente. O rótulo da marca de leite de coco foi retirado. Era pequena e estava bem lavada e seca. Não queria que aparecesse bolor dentro dela enquanto ficasse percorrendo as correntes marítimas do mundo. Clarita pensou que precisava estudar mais sobre essas correntes. Talvez uma garrafa lançada em águas brasileiras nunca chegasse ao Taiti ou ao Alasca. Podia ficar ainda vagando em águas nacionais eternamente, sem nunca esbarrar em terra firme. Meditou muito sobre isso e concluiu que a emoção estava mais reservada para quem encontrasse a garrafa, e não necessariamente em quem a atira ao mar. Mas se ninguém joga a garrafa nas águas, com seu papelucho dentro, como outras pessoas terão mensagens inesperadas vindas de além-mar? Não desistiria de seu propósito.
Chegou o momento de escrever a mensagem. Já estava decidida em escrever em português, pois tradutores on line existem em todas as partes do mundo para qualquer idioma. Rasgou um pedaço de uma folha de caderno, empunhou a esferográfica e era chegada a hora de criar uma mensagem impactante. Sem demora, rabiscou:

"Espero que você seja muito feliz e faça os outros felizes também."

Um muxoxo invadiu Clarita. Quanta banalidade em uma frase. Tanto planejamento e agora enviaria pelo mundo uma mensagem tola, simples e impessoal. Ser feliz e fazer os outros felizes tem seu mérito, mas não é impactante para ser lacrado em uma garrafa. Quando criança, ficaria encantada em ler qualquer coisa em uma situação dessas, mas, adulta, sentia-se envergonhada escrevendo banalidades. Pensou um pouco mais e em outra folha de caderno escreveu:

"Não suje a areia da praia com esta garrafa. Guarde a mensagem e descarte o invólucro na lixeira destinada a vidros. Proteja o planeta. Salve as baleias."

O texto estava grande. E meio sem sentido. Parecia que ela tinha planejado a mensagem na garrafa só para que ela viajasse para longe, mas sem levar nada de consistente. Estava estranho. Com que intuito as pessoas faziam isso antigamente? Será que era para pedir socorro em um mundo sem e-mails? Isso! O que faltava era modernidade dentro da garrafa! Agora, Clarita escreveria, em um novo pedaço de papel:

"Que bom que você encontrou esta mensagem! Ela te trará muita sorte! Entre em contato comigo pelo email clarita@mail.com.br."

Assim que terminou de escrever, Clarita sentiu um arrepio. Arrependia-se de querer jogar ao mundo um contato tão importante quanto um endereço de e-mail. E se a pessoa que encontrasse a garrafa fosse um bandido? Um psicopata? Um engraçadinho a enviar-lhe frases tolas e repetitivas para o resto da vida? Não! Rasgou o papel em mil partes. Como era difícil aquela empreitada! Que mensagem criaria? O desânimo a derrubou na cadeira. Um sonho de infância estava se esvaindo pelo ralo. Há coisas que perdem o sentido com o passar do tempo. Mas Clarita estava decidida a fazer correr o mundo um pedado de papel com sua caligrafia. Mais uma vez, segura a esferográfica e ensaia sua próxima declaração. Deve ser impactante, com algum sentido nobre e sem contato para retornos:

"Sua vida vai mudar! Acredite! Olhe o mar à sua volta. Ele é lindo! Creia na vida. Não jogue a garrafa fora na areia. Seus números da sorte pra hoje são 22, 35, 54 e 76."

Ali estava um pouco de autoajuda, misticismo e consciência ambiental. De tudo um pouco. Ela adoraria receber uma mensagem assim. Algo para deixar a pessoa alegre e com palpites de números da sorte. Ainda assim, sentia um peso no coração. Não havia dado o melhor de si. Pareciam frases de biscoito chinês da sorte. Mas quem não gosta de biscoitinho da sorte? 
Clarita resolveu encerrar a história por ali mesmo. No final de semana, atiraria a garrafa ao mar. Ficaria observando-a, até que ela se afastasse e sumisse nas espumas por completo. Teria que ser bem cedo, em um horário com poucos banhistas, porque algum deles poderia interceptar a viagem do precioso objeto. Depois do sumiço da garrafa, ela ficaria imaginando para onde ela iria, qual a corrente marítima que de fato a levaria para longe, em que areias chegaria, quem a acharia e com qual emoção. Ela nunca saberia que fim teve a garrafa. Voltou ao seu velho pensamento que é muito mais emocionante encontrar uma mensagem enrolada dentro de uma garrafa vinda pelo mar do que atirar as frases no oceano. 
Clarita jogará sim o artefato nas águas no próximo final de semana. Voltará para casa sem o entusiasmo de sonho de infância realizado. Não pensará no passado pelos próximos meses. Planejará atirar outra garrafa ao mar, só que com uma mensagem maior. Quer expor ao mundo o sonho de uma menina que morreu dentro de um corpo grande.

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