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O piano de capricórnio*

"Quando os dedos se afundam com muita força nas teclas do piano, isso indica que é hora de retroceder. É hora de repensar e fazer de um modo distinto". Pensava assim todos os dias Geandra, com seus dedos longos e talentosos. Um tanto tristes nos últimos dias. O estômago estava sempre pesado. Pequenas pedras engolidas diariamente. O alento de Geandra era inventar músicas novas no piano surrado. Mas com os dedos pesados de preocupação, ela não estava criando nada. Peixes mortos na superfície do aquário. Capricornianos são desse jeito, trazendo pontada de infelicidade na alma. Querendo que tudo saia corretamente nos planos mundanos. Geandra fazia aniversário na véspera do ano novo.
Ela odiava simpatias minutos antes do primeiro de janeiro. Odiava a felicidade repentina de quem depois apresentaria cansaço e descrença na vida pelos próximos 365 dias, trabalhando em coisas que não acreditavam. Geandra acreditava em seu piano, e em suas criações. Gostava de ficar sozinha, de admirar a samambaia pequena na janela e de comer uvas no fim do dia. Morava sozinha. Sua estrada na vida não recebera a visita de ninguém. O piano velho, herança da avó, completava-a. E deixava o seu rosto anguloso com ares de mistério, de mulher solteira admirável.
No dia em que Geandra percebera que seus dedos estavam pesados nas teclas do piano, abandonou o assento e foi se debruçar na janela, ao lado da pequena samambaia. Não criou nada naquele dia, nem nos outros seguintes. Depois de um mês, só arriscando algumas notas, sentia-se mais estranha. A garganta se apertava em um nó. Insistia nas melodias, insistia em espantar a tristeza triunfadora de capricórnio. O ano novo ainda estava longe. Era agosto e o sol não esquentava. Geandra estava fria na alma. Sua língua não trocava palavras com alguém de carne e osso há meses. Sua solidão era cada vez mais forte. Talvez fosse o momento de esquecer até mesmo as teclas do piano velho. Elas não mereciam mãos pesadas de preocupação.
Geandra notou que a samambaia morrera. Menos um habitante na casa. Seu coração apertou. Rompera a amizade com o piano. A casa estava muda. Assim como Geandra. Um vento seco cortando a planície sem horizonte próximo. Suas mãos pesadas eram reflexo de uma consciência atormentada. O passado atormentava Geandra. Sua visão capricorniana não a deixava ter jogo de cintura. O pretérito pesou passo-a-passo sobre seu ombro fraco. Todos se foram. A casa estava vazia. A reconciliação era nula com quem quer que fosse.
Não recebia visitas, mas em uma tarde de setembro com garoa, Geandra abriu a porta para um velho conhecido que estava de passagem pela cidade. Usar a língua nos diálogos foi difícil depois de tanto tempo esquecida. Quis aproveitar a oportunidade para desempoeirar o piano. Talvez fosse um sinal do destino, trazendo-lhe um pouco de paz. Não criaria nada, apenas tocaria canções manjadas, de memória. As mãos pesaram sobre as teclas. Geandra não se reconhecia. O piano a tocou do assento. Não sabia mais nada de partitura alguma. O amigo se foi, e não voltou nunca mais. Geandra ficou só ainda por muitos anos. O piano surrado nunca mais foi aberto. Ficou de testemunha da dura estrada capricorniana o vaso velho e trincado da pequena samambaia.

*deste blog, de abril de 2014

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