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Limoeiro

Com a lua descendo aos poucos no céu, era difícil se concentrar em outra coisa. Estava dividida, bem ao meio, com um lado tão branco como as nuvens, sobre um fundo azul celeste. A lua podia ser vista durante o dia, intocável. Milhares de coisas ainda por fazer. O trabalho e as opiniões que devem ser formadas todos os dias para parecermos mais lúcidos. Olhar a lua não é pecado. Continuemos a observação. Até alguém bater na porta e entrar resmungando que a vida é um limoeiro bem criado. Quem pensa que a vida é azeda, como limão pequeno caído fora de época, deve pensar que a solução é cortar o limoeiro fora. Por que não?
Peguei o machado meio enferrujado no quartinho dos fundos de casa. Passei um pano velho na lâmina para melhor apresentação e funcionamento. O pé de limão ainda estava pequeno, mirrado, com tronco fino atrofiado. Seria fácil destruí-lo com uma cortada certeira. Talvez a faca de cozinha servisse. Mas queria algo mais emblemático para cortar o azedo da vida. Senti o peso da ferramenta e ensaiei alguns golpes no ar para não perder tempo na hora do corte. Teria que ser uma cena magistral, muito bem feita, icônica, para registrar em minha mente que o azedume de meus dias fora cortado de uma vez por todas. Com um só golpe. Para comprovar que sou boa de ideias e de pontaria. Aquilo de cortar o limoeiro moribundo no quintal me dera um ânimo incrível. Sair ao sol, tomar um ventinho fresco de fim de tarde, inventar uma tarefa tão fugidia do cotidiano. Em minutos, creio que estava até mais corada. Mas era hora de acertar a árvore pequena. Desfazer-me do azedume da vida. Do azedume dos limões que não vingam. Pois até os que vingam ainda persistem no gosto ácido.
Levantei o machado, não muito, colocando-me numa posição curvada. O pé deveria ter somente meio metro. Pensava nos motivos de ter plantado um limoeiro, sendo que nunca gostei de limões, nem de limonada. Acho que plantei em um dia que observava a lua, ainda no clarão do dia, com a cabeça ruim de ideias, matutando em fazer algo de diferente para sair ao sol e sentir o ventinho fresco do fim de tarde. Bem à minha frente um pé de maracujá me observava. À direita, uma roseira de flores púrpuras dançava no vento fresco de primavera de dia quente. O sol diminuía o fogo de sua lamparina, e me peguei pensando se limões e maracujás faziam amizades. Eram da mesma família do azedume. Talvez fossem primos! E eu com um machado na mão prestes a matar um membro da família. O pé de maracujá estava forte. Nem balançava com o vento. A roseira se tremia toda. Não era parente do limoeiro, mas deveriam ter trocado olhares algum dia. Um flerte rápido, até o limoeiro murchar e perder sua beleza. Pensei ainda o contrário. O limoeiro flertou com a roseira e fora desprezado. O que rosas fariam com limões? E a partir desse dia, ele perdeu o viço.
Meus cabelos já estavam despenteados com o vento e o machado meio enferrujado ainda não tinha feito sua obra-prima, a de cortar o azedume da minha vida em um golpe fatal. Percebi o meu tamanho e o tamanho do limoeiro. Tão pequeno. De longe, notei a desaprovação da velha laranjeira cheia de abelhas. Debaixo dos meus pés, a terra estava seca e grudava sua poeira fina em meus sapatos negros. Todas as plantas deveriam estar com sede. Todas morriam de sede aos poucos, enquanto eu admirava a lua intocada no céu. Voltei para o quartinho e guardei a ferramenta. Joguei água de mangueira em todas aquelas árvores, novas ou velhas, em todos os vasos de flor, em todas as avencas que nascem nas fendas de qualquer quintal. Dei água para tudo que tivesse vida, formigas e joaninhas. Não sei se o limoeiro terá forças para beber algo. Talvez o primo maracujá o ajude de alguma forma. Larguei tudo e corri para dentro de casa. A lua agora não estava mais no enquadramento da minha janela. O quintal estava sob uma luz fraca de sol que esmaece, deixando rastros. Penso em não votar mais lá nos próximos dias. Talvez eu chore ao ver o limoeiro sem vida.

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