É outono. 28 de março de 2015. As
quaresmeiras começam a surgir às margens da estrada asfaltada. Solitárias ou em
grupo, mostram a cor arroxeada das flores. Pontilham o verde variado da mata,
como uma pintura impressionista. Depois de alguns quilômetros, chego à casa
onde nasceu Alberto Santos Dumont. Da cancela de entrada, avista-se a casa, não
muito grande, mas imponente, com ares típicos das Minas Gerais. Ar puro
inconfundível.
À esquerda, um lago com águas turvas e trêmulas revela ao fundo uma
carpa negra, solitária. A poucos passos, a casa-museu. Já perdi as contas de
quantas vezes a visitei desde a minha infância. Entro e ninguém me recebe.
Cômodos não muito amplos e móveis necessários. Na minha frente, uma lareira
construída em 1919 está adornada por dois bustos do inventor. Um feito em
bronze, de autoria de Colim George (1902) e outro em gesso, de Laffourrie
(1967). Em bronze, Santos Dumont revela um olhar mais altivo e confiante. No
outro, aparenta estar mais velho e compenetrado.
Debruço-me sobre cada vitrine, repleta de objetos dele e da família.
Louças de origem holandesa; um aparelho de chá de Sévres – há séculos, uma
famosa marca de porcelana francesa – com as iniciais HD, Henrique Dumont, pai
de Alberto; leques de papel; medalhas; ferramentas e, o que mais me interessa,
cartas. Uma, endereçada à irmã, Virginia, mostra-nos um conteúdo legível de um
assunto familiar. Há o carinho de se assinar apenas “Alberto”. Datada de 4 de
setembro de 1930, foi escrita de Biarritz, no litoral francês.
Nas paredes, muitas fotos, ilustrações e pinturas. O caricaturista
francês George Goursat, conhecido como Sem, em original de 1900, pincela Santos
Dumont em um cesto de voo, com enormes relógios de pulso, novidade lançada pelo
inventor, confeccionada pelo amigo Cartier. Em outras molduras, fotos de testes
de voo, de peripécias em balões, da Casa Encantada – onde vivera em Petrópolis-RJ.
Retratos nos revelam uma família com oito filhos. Pai e mãe estão em molduras
separadas. Não olham nos olhos dos visitantes. Francisca dos Santos tem o olhar
rebaixado à direita, com suas pesadas vestimentas de fim de séc. XIX. Henrique
Dumont mira também à direita, com uma visão mais confiante. Em muitas imagens,
vemos um Santos Dumont que envelhecera de repente, por ter feito o que o homem
sonhou por milênios.
Vi livros sobre uma pequena mesa, sustentados por aparadores. La Science Expérimentale, de Claude
Bernard e Lendas e narrativas, de
Herculano. Alguns móveis foram feitos por um carpinteiro local. Onde talvez fosse
a cozinha, podem ser vistas várias reproduções emolduradas das cartas enviadas
de Santos Dumont ao caseiro João, vindas de Petrópolis, Praia do Flamengo, São
Paulo e Rio de Janeiro. Deleito-me em suas temáticas. Em uma delas, li:
João
Você
pode trazer a vaca para casa e ir amansando ella. Eu mandarei breve buscal-a.
Santos=Dumont
Imagino Santos Dumont, com sua discrição e elegância, desfrutando da
casa, depositada em meio ao verde puro da mata. Do lado de fora, avisto o lago
turvo. Não me esqueço de assinar o nome no livro de presenças. Até aquele
momento, dezessete visitantes no dia. Os dois últimos vindos de Santa Isabel do
Rio Preto-RJ e Juiz de Fora-MG.
Ainda há caminhos de pedra, com muitas árvores, ao redor da construção
que merecem ser percorridos. A umidade castiga a casa onde nascera o ilustre inventor,
mas ainda mantém-se firme para os que se interessam em voltar ao passado,
pisando no assoalho de madeira e testemunhando um tempo que não tinha pressa em
correr nos trilhos. Regressando, penso na mãe de Santos Dumont, com suas roupas
vitorianas, enquanto observo as quaresmeiras.
*este texto foi escrito após a leitura
de A casa de Carlyle, da escritora
inglesa Virginia Woolf (1882-1941), na ocasião de sua visita à casa onde vivera
Thomas Carlyle, escritor e historiador escocês, morto em 1881. Hoje é um museu
e localiza-se no bairro Chelsea, em Londres;
**coincidentemente, a Casa-Museu de
Alberto Santos Dumont foi visitada, para anotações ao texto, em 28 de março,
data em que Virginia Woolf falecera, afogando-se em um rio próximo à sua casa;

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