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À mesa com memórias

Brócolis. Pequenas árvores mastigadas lentamente. O rosto que ela avistava mesas à frente era tão familiar. Tinha traços reconhecíveis. Olhos ternos e aconchegantes, como edredom leve em dias de temperatura indefinida. O rosto inteiro era familiar. Pareciam conhecidos de longa data. A moça de uniforme vermelho pergunta se ele vai tomar alguma coisa. Ele responde água. Água aconchegante como edredom azul recém-comprado. Couve-flor é um brócolis que ficou pálido de susto. Ela repassa nas memórias antigas alguém que seja assim, como ele. Tão familiar. Poderiam ter estudado juntos, trabalhado juntos, brincado juntos em qualquer parque sujo da infância. Quem sabe ele não perguntou as horas em alguma esquina desencontrada de ruas sem nomes importantes ou lembráveis. A cada mastigada o olhar deveria ser discreto. Porque tudo poderia ser um grande engano. A presença dele mesas adiante deixou seu almoço paralisante. Comia porque iria trabalhar depois. Necessidade do estômago vazio. Mas o pensamento viajava pelo salão, circulava pelas mesas, beliscava a batata frita do prato dele e perguntava assim, diretamente, aquela frase brega "te conheço de algum lugar?".
Na parede, o relógio, cujos números foram substituídos por frutinhas, anunciava o término da refeição e o ir embora do rosto terno e reconhecível. Talvez fosse a última refeição compartilhada com ele. Tão perto. Tão longe. Tão familiar. Amigos de infância, quem sabe. Ou de adolescência. Ou de corredores de lugares infinitos desse mundo. Quem sabe na cadeira ao lado no cinema. Cenoura crua ralada. Lembra o colorido das perucas de carnaval. Tantos anos já se passaram e aquele vazio no peito que não ia embora depois de cada dia de ano-novo-vida-nova. Os ponteiros do relógio faziam salada de frutas. Ela estava indecisa. Quem sabe levantar e abordar no meio do nada. Pensamentos rodopiando em cada mesa, pedindo passagem. Outro brócolis, outra couve-flor, outro champinhom, outra beterraba colorida - fazendo parte da peruca carnavalesca.
Forçou a memória. Ao máximo, aos mil volts. Voltas no salão, no cérebro, em manhãs, tardes, noites. Olhos aconchegantes de pôr-do-sol de praia, de perfume familiar, de vestido confortável. Não era possível que não se lembraria. Fechou os olhos, mastigou com força a couve-flor pálida mal cozida, boa para intestino. De pálpebras caídas, ela o avistou. Caminhavam juntos por uma rua estreita desconhecida. Abraçados. Falavam sobre o tempo frio. Ela quis entrar numa loja e ver preço de fronhas. Ele não se importou e esperou pacientemente. Ela saiu da loja sem comprar nada. Ele sorriu ternamente, e eles continuaram caminhando devagar, como se o relógio não quisesse comer frutas da estação. Atemporal e bem nítido. Até que de repente a cena se desfez com o raio de sol rasgando em cheio a sua cara. Era cedo. Hora de o dia implacável começar.
Ela sorri e abre os olhos. Ele não está mais na mesa adiante. O próximo encontro será improvável. Memórias e solidão apertam em um laço e tanto. Armadilhas para animais pequenos. A comida esfriou no prato. Árvores pálidas e perucas carnavalescas. Ela deve confessar que a uva que substituiu o doze no relógio estava azeda e apressada.

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