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As senhoras Lucy e Valentine


No bolso da saia da senhora Valentine há uma carta importante, que deve ser entregue ao destinatário até as cinco horas da tarde. Já são suas horas e o sol começa a se esconder atrás de nuvens pesadas e aguadas. Ela odeia missões assim. Entregar escritos lacrados em um envelope para destinatários misteriosos é o que ela faz toda semana para a sua patroa, a senhora Lucy.
A senhora Lucy é casada há dezenove anos com o senhor Alberto. Parece ser um casamento sólido, sem filhos e sem atribulações. Eles se respeitam muito e toda noite jogam cartas sobre a mesa da sala de jantar, forrada com uma toalha de feltro verde, confeccionada especialmente para tal fim. A senhora Valentine é uma empregada de confiança. Trabalha há quinze anos para o casal, que mora na mesma rua desde que se casaram. A casa não é grande, mas é confortável, com uma sala que pode receber até três casais de visita. A senhora Valentine cuida muito bem de seus afazeres domésticos, mas crê que não sabe cozinhar muito bem. Mas a senhora Lucy nunca reclamou de nada.
Há seis semanas, a senhora Lucy cumpre o mesmo ritual. O de entregar à senhora Valentine uma carta dentro de um envelope totalmente lacrado. O destinatário é um senhor de cabelos grisalhos que mora na rua onde passa a única linha de bonde da cidade. Não há seu nome no envelope. Ele a atende sempre com um ar compenetrado, de quem fora interrompido durante uma tarefa muito importante. Recebe a carta solenemente, nunca a agradece e encosta a porta suavemente. Na semana seguinte, o mesmo ritual, no mesmo dia da semana, quinta-feira.
A senhora Valentine não acredita que o senhor misterioso seja amante da senhora Lucy. As cartas não podiam ser de amor. Sua patroa mal saía de casa, com problemas terríveis de varizes. Já tinha também seus cabelos grisalhos. Impossível ser uma aventureira nessa idade. O senhor Alberto era muito distinto e dava de tudo à sua esposa. Levavam uma vida perfeitamente confortável. Ela não podia ser uma traidora em um relacionamento tão seguro. Talvez o senhor fosse um parente. Ou um velho amigo do passado.
A senhora Valentine, no meio do caminho de mais uma entrega de carta, colocou o envelope contra a luz fraca do dia que anunciava tempestade. Não viu a sombra de nenhuma linha escrita. Tentou diversas vezes, sem resultado. Corou a face ao notar que aquilo não era atitude de uma criada fiel. A carta deveria ser somente entregue, sem conjecturas de sua parte. Apertou o passo, antes que as nuvens aguadas se diluíssem. Faltando duas quadras para chegar ao destinatário, precisou abrigar-se sob a marquise de uma loja. Ficou por vinte minutos, tentando manter as meias secas para não resfriar mais tarde. Depois que o aguaceiro terminou, ainda enfrentando alguns chuviscos, continuou a caminhar.
Cartas não deveriam ser entregues no outono. O vento começou a soprar forte, anunciando outra leva da tempestade. Uma rajada forte levou o envelope de suas mãos, caindo sobre uma pequena poça d'água. A senhora Valentine a recuperou com pressa, antes que se encharcasse por completo. Mesmo assim, o papel enrugou-se, tornando-se imprestável. Como entregar a carta naquele estado? Pensou em jogá-la fora, anunciando à patroa que a mesma fora entregue. Pensou entregá-la assim mesmo, contanto a verdade da poça d'água e acrescentando pedidos de desculpas. Pensou em voltar para casa, contar a verdade à senhora Lucy e pedir desculpas. Das três opções, concluiu que a terceira era a mais sensata. Não se deve repassar a alguém um envelope em tão mau estado.
A senhora Valentine deu meia volta na esquina do quarteirão e refez o caminho percorrido com a carta no bolso da saia. De repente, as nuvens aguadas se dissiparam e o sol apareceu mais reluzente do que nunca. Com as mãos nos bolsos, ela sentiu que a carta havia secado por completo. Mas ainda estava toda enrugada. Entrou em casa com pressa para contar logo sobre o incidente. Ao ver a senhora Lucy, disse a verdade. Voltava com a carta e a repassaria naquele momento. Ao entregar, a senhora Valentine notou que o envelope, no molhar e secar do papel, se abrira. A senhora Lucy arregalou os olhos com o envelope aberto nas mãos. A senhora Valentine corou o rosto e não teve voz para dar suas explicações, tamanho o susto que sentia na garganta. Pensou em pedir desculpas um milhão de vezes para preservar seu emprego. Pensou em perguntar insanamente para a senhora Lucy sobre o conteúdo da carta. Pensou em virar as costas e largar de vez uma casa sombria, com um casal perfeitamente estranho, que fazia do jogo de cartas a razão de sua vida, e nunca mais ter que entregar envelopes para um senhor de cara fechada. Das três opções, concluiu que a terceira era a mais sensata.
A senhora Lucy e a senhora Valentine nunca mais se viram.

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