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Na sala de espera do dentista

No meio da tarde, Leninha estava com sua mãe, em uma sala de espera de consultório dentário. Tinha cinco anos e era pequena, pequenina mesmo. De Maria Madalena para Lena, de Lena para Leninha, seu nome ficou curtinho, assim como o tamanho de seus pés até a cabeça, com o cabelo lisinho, com franjinha bem aparada. Menina comportada. Muito tímida e apegada à mãe.
O grande temor de Leninha era ter que esperar muito tempo pela consulta da mãe, sentada em um sofá gasto de courvim marrom. A sorte era não ser a paciente. Não enfrentaria os temidos aparelhos de dentista, sentada na cadeira gasta de courvim verde, para ao final ganhar algum brinquedinho de plástico de recompensa. Ou nem isso. A mãe era a pura paciência, com seu vestido bege de golinha redonda, tão repetitivo no verão. Leninha queria logo continuar andando pelas ruas, debaixo do sol, cheirando as frutas das quitandas ou as flores da barraca da dona Lina.
A sala tinha uma lâmpada incandescente queimada, das três do lustre antigo. Quase uma meia luz que convidava ao sono. Com as pernas esticadas, via do sofá que a secretária do dentista não largava o telefone. A mãe estava calada. Não levava adiante nenhum assunto iniciado por Leninha, que sem querer encolheu as pernas ouvindo da mãe "tire o pé do sofá". À esquerda, um relógio enorme marcava quinze e trinta em ponto. Disso nós sabemos. Não Leninha, que não sabia ainda ver as horas dispostas por ponteiros em formato de flechas.
Depois de muito balançar suas perninhas esticadas, a menina vê algo sobre a mesa diante do sofá. Uma mesa enorme de madeira escura, lustrada com óleo de peroba cujo cheiro fazia lembrar móveis de museu. De um lado, revistas de capas amassadas. Ao centro, uma estatueta de um cavalo empinando sobre as patas traseiras e com a crina esvoaçante. Leninha era fã de cavalos e de como seus "cabelos" podiam balançar no vento, como sinônimo da mais pura liberdade. O que ela não tinha presa naquela sala escura e esquisita. O cavalo era todo preto, de metal. Sem tocar, ela sabia que era de metal. Devia ser uma estatueta pesada, apesar de não muito grande. A base era retangular, de uma cor que intrigava Leninha. Tinha cor de doce de leite cortado na pedra. Daqueles meio quadradinhos, como os que são vendidos no bar do Valdo. Com apenas cinco anos, a pequenina cismou que o cavalo, todo valente, estava sobre um retângulo de doce de leite gigante. A vontade de passar a mão na base da estátua chegou imediatamente após sua conclusão açucarada. A barra deveria estar na temperatura ambiente e se afundaria um pouco caso ela encostasse um dos dedos e apertasse bem. Que vontade irresistível. Mas como faria isso, se a sua mãe, desde a saída de casa, dizia sempre para ela ficar quietinha e ter bons modos? Se ela descesse do sofá, com suas pernas curtinhas, desse um passo em direção à mesa e encostasse o dedo na base do enfeite, sua mãe a xingaria e a cara feia perduraria até a chegada em casa.
Leninha tentou se contentar com a imaginação. Sim, seria um doce de leite gigante, cortado na pedra, como os vendidos no bar do Valdo. Seria bem doce mesmo? Que cor linda ele tinha, um marrom claro, com algumas manchinhas de um marrom mais forte. Os ponteiros do relógio se moviam lentamente para a menina curiosa. Olhava para a mãe, que estava distraída. Olhava para a secretária, que anotava algo em um caderno pequeno. Que mal tinha em tocar a base da estátua? Preferia levar um xingamento, mas não ter aquela agonia levada para casa. Quem sabe o dia em que voltaria à sala de espera daquele dentista?
Em um movimento rápido e entregue ao castigo posterior da mãe, Leninha desceu do sofá, deu um passo em direção à mesa e colocou o indicador direito sobre a linda base abaixo do cavalo. Que base fria! Não afundou, não era açucarada! O cavalo era de metal, mas abaixo dele tudo era pedra! Pedra como estas de se debruçar na janela. Subiu no sofá com o rosto queimando de vergonha. Olhou para a secretária, que continuava com as anotações. Olhou para a mãe, que continuava distraída. Ainda com a decepção do toque na estátua, viu que sua mãe não estava nem aí para o que ela fez. Isso a animou um pouco. Esqueceu logo o doce de leite. Segundos depois, sua mãe foi chamada para a sala do dentista. Ela acompanhou obediente. Pensou em contar tudo para a mãe ao chegar em casa. Mas depois achou melhor não. O que uma barra enorme de doce faria sobre uma mesa, lustrada com óleo de peroba, com um cavalo em cima, em um consultório dentário? Curiosa sempre. Mas não biruta.

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