Enquanto o sol aparecia no céu a duras penas, Margareth apressava o passo para chegar logo em casa e contar para sua vizinha sobre as promoções de fim de ano naquela loja de fachada amarela, tão bonita, na esquina da avenida principal. De fato, a loja era grande e com preços bons. Gostou tanto dos chinelos floridos e das blusas coloridas com aplicações de pedrinhas miúdas. Na hora, não comprou nada, mas voltaria preparada no dia seguinte. Virou uma esquina, mais duas, atravessou a faixa de pedestres e não via a hora de chegar em casa, tirar os sapatos, ligar a TV e esperar o filho vir da escola. Mas antes, falaria com a dona Telina. Imaginou os diálogos, como ressaltaria as promoções, como deixaria tudo tão interessante para que a viúva Telina animasse a ir para a rua, fazer umas comprinhas, de coisas bobas mesmo, para reavivar o dia e ter o que conversar depois, assim como faria Margareth, pensando em comprar suas coisas bobas também para ter o que falar para dona Telina. A vida precisa de motivos para se crer nela. Que mal há em chinelos novos, com estampas simpáticas?
A duas casas de onde morava dona Telina, sentiu o cheiro do café recém-passado. Já eram quatro da tarde. Ficou em dúvida se chamaria a vizinha de uma vez ou se entraria primeiro na própria casa para deixar as azeitonas e os pacotes de macarrão comprados. Coisas que não são da categoria "bobas", mas, antes de tudo, necessárias. Quando deu por si, já estava apertando a campainha da viúva, que atendeu depois de uns segundos. Entrou, contou da loja bonita de fachada amarela, aberta há duas semanas apenas. Que linda era, com um montão de roupas em promoção. E tinha um painel no fundo, lotado de brincos, prateados, dourados, de plástico, de mdf com pinturas. Uma loucura de lindeza!
Sentaram à mesa da cozinha e tomaram o café quente, recém-saído do coador de papel. Dona Telina concordava com as lindezas da loja e esboçava pequenas frases de "em breve irei lá". Mas Margareth sabia que a viúva não iria. Viuvez de cinco anos, mas que derrubou dona Telina, sem filhos, sozinha em sua casa de paredes verdes desbotadas. Não parecia triste, mas era raro vê-la animada ou saindo para o centro comercial.
Margareth tagarelou, como sempre. Os brincos com pérolas grandes eram os mais lindos do painel e os caixas atendiam depressa. Nada de filas demoradas. No dia seguinte, voltaria lá. Queria os chinelos azuis com flores pink. Viu no relógio da cozinha que era hora de o filho chegar da escola. Despediu-se de dona Telina prometendo voltar no dia seguinte para mostrar as novidades adquiridas. Saiu pelo portão, carregando suas sacolas de compras necessárias. Dona Telina ainda a viu entrar em casa, com seu jeito animado, meio esbaforido. De volta à cozinha, pegou um pouco mais de café na garrafa de tampa apertada. Pensou na vida de Margareth, nas suas falas disparadas, nas suas ideias de ter coisas novas e diferentes. Observou o silêncio tomando conta da casa, como uma nuvem crescente no céu. Estar a sós também era bom. Tinha chinelos novos guardados no quarto. Tinha uma blusa azul linda, novinha, meia estação, pendurada no cabide, esperando um dia especial para ser usada. Tinha macarrão e azeitonas o suficiente até o próximo mês. Não tinha dívidas, nem ansiedade, nem horário com ninguém. Era ela com seu café, sem pressa. Coisas necessárias compradas. Coisas bobinhas poderiam esperar. Assoprou a fumaça da xícara e percebeu que naquela tarde se sentia muito bem.
A duas casas de onde morava dona Telina, sentiu o cheiro do café recém-passado. Já eram quatro da tarde. Ficou em dúvida se chamaria a vizinha de uma vez ou se entraria primeiro na própria casa para deixar as azeitonas e os pacotes de macarrão comprados. Coisas que não são da categoria "bobas", mas, antes de tudo, necessárias. Quando deu por si, já estava apertando a campainha da viúva, que atendeu depois de uns segundos. Entrou, contou da loja bonita de fachada amarela, aberta há duas semanas apenas. Que linda era, com um montão de roupas em promoção. E tinha um painel no fundo, lotado de brincos, prateados, dourados, de plástico, de mdf com pinturas. Uma loucura de lindeza!
Sentaram à mesa da cozinha e tomaram o café quente, recém-saído do coador de papel. Dona Telina concordava com as lindezas da loja e esboçava pequenas frases de "em breve irei lá". Mas Margareth sabia que a viúva não iria. Viuvez de cinco anos, mas que derrubou dona Telina, sem filhos, sozinha em sua casa de paredes verdes desbotadas. Não parecia triste, mas era raro vê-la animada ou saindo para o centro comercial.
Margareth tagarelou, como sempre. Os brincos com pérolas grandes eram os mais lindos do painel e os caixas atendiam depressa. Nada de filas demoradas. No dia seguinte, voltaria lá. Queria os chinelos azuis com flores pink. Viu no relógio da cozinha que era hora de o filho chegar da escola. Despediu-se de dona Telina prometendo voltar no dia seguinte para mostrar as novidades adquiridas. Saiu pelo portão, carregando suas sacolas de compras necessárias. Dona Telina ainda a viu entrar em casa, com seu jeito animado, meio esbaforido. De volta à cozinha, pegou um pouco mais de café na garrafa de tampa apertada. Pensou na vida de Margareth, nas suas falas disparadas, nas suas ideias de ter coisas novas e diferentes. Observou o silêncio tomando conta da casa, como uma nuvem crescente no céu. Estar a sós também era bom. Tinha chinelos novos guardados no quarto. Tinha uma blusa azul linda, novinha, meia estação, pendurada no cabide, esperando um dia especial para ser usada. Tinha macarrão e azeitonas o suficiente até o próximo mês. Não tinha dívidas, nem ansiedade, nem horário com ninguém. Era ela com seu café, sem pressa. Coisas necessárias compradas. Coisas bobinhas poderiam esperar. Assoprou a fumaça da xícara e percebeu que naquela tarde se sentia muito bem.
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