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Veia cava

Tentamos nos calar. A lava do vulcão transbordou. As larvas se remexeram no submundo. Palavras vermelhas se afundaram e perfuraram minha veia cava. Superior. Inferior. Meus pés incharam. A língua murchou por quarenta e oito horas. Foi um bom período de sobrevivência. Aprendemos a respirar com a ajuda de aparelhos. E calados nos aliviamos de todas as possibilidades do dicionário com mais de quatrocentas páginas. Não era o momento de subir ainda à superfície. As larvas ainda estavam vivas, pedindo alimento. Estávamos fracos. Estávamos aproveitando cada segundo do ar, que se tornava rarefeito. Não sabíamos usar ponto e vírgula. A veia estava estrangulada e as mãos também começaram a inchar. A cabeça de ninguém se encontrava em bom estado naquele momento para responder o que era perguntado. Não contaremos quais foram as perguntas. Imaginem. Fiquem à vontade. Depois de quatro dias respirando com um tubo entalado na garganta, saímos do estado de torpor. Mais rugas apareceram na testa, e ao redor dos olhos. Além das que já tínhamos. Não nos envergonhamos de nada. Reagimos ao que nos foi proposto. Não esperávamos tanto. Tão forte. Tão vermelho. Tão vulcânico.

Vemos larvas se remexendo todos os dias. Competimos agora o ar rarefeito com todas elas. Temos narizes. Elas não. Difícil. A superfície ainda não está limpa. E a vida não nos dá respostas. Não nos dá sinais. Não cremos em sinais. Cremos no céu azul e no que está além dele. Atrás das nuvens. Atrás de cada gota de chuva. Queremos água limpa. Não há. Não merecemos. Os dias se arrastam. As noites assustam. Queremos fugir. Mas merecemos todo o castigo que nos foi dado. Desobedecemos. Fomos além do que podíamos. Por isso, nos calamos. Tentamos nos calar. A lava foi consumindo tudo. As larvas. O tubo entalado na garganta. Os braços esquerdo e direito. As nossas vidas. As nossas palavras. O céu azul e o que está além dele. A veia cava. Choveu o suficiente para os próximos três meses. Do que adianta? Ainda não atingimos a superfície. Merecemos o castigo. Não estamos nus. Mas merecemos todo o castigo do mundo.

Mais quarenta e oito horas pela frente. A vida não dá trégua. Merecemos. Ciclos. Um ruim se alternando com outro pior. Não estamos nus. As larvas nos consomem.

*postado neste blog em 11/06/2015

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