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A sopa

Em uma noite como outra qualquer, Zulmira decidiu servir um jantar diferente. Não sabemos o motivo, que deveria ser bem pessoal, pois a noite era uma noite qualquer mesmo, sem sombra de dúvidas. Lembro-me de ser uma terça-feira de outubro, um pouco fria, mas não muito, quem sabe dia 21 ou 22. Uma noite mais comum que essa era impossível.
O que animava Zulmira a sair de seu ânimo, sempre pequeno e imperceptível, era um mistério. Anunciou o jantar especial com dois dias de antecedência e não vi nenhuma compra diferente, feita no mercado pequeno do seu Romeo, chegando em casa e se espalhando sobre a mesa da cozinha, já que nos armários o que tinha era o mesmo da semana passada. Os olhos de Zulmira brilhavam de um jeito estranho. Falava com uma animação, que às vezes ela parecia diminuir um tanto para que ninguém a questionasse sobre o motivo da felicidade repentina. Os dias eram difíceis naquele tempo, para ela e todo mundo.
No domingo, ela anunciou que na terça-feira a noite seria distinta, com a apresentação de uma famosa receita de família. Queria muito que todos estivessem presentes, sentados à mesa, no horário combinado, sem demora, porque a receita era típica de dias frios, como aqueles que estavam fazendo, com vento tilintando nas janelas, e não podia esfriar. Todos tentaram adivinhar qual receita Zulmira arriscaria ao fogão. Era um assado? Era uma sopa encorpada? Era um pão recheado? Segredo. Zulmira não deu pistas e se retirou para lavar a louça, indo atrás dela o caçula que sempre enxugava os pratos.
Quanto suspense! Na segunda-feira, os presentes arriscaram perguntas sobre o que comeriam no dia seguinte, sem nenhum sucesso. Zulmira instalara o grande mistério, e já havíamos compreendido que ele é que dava um ar todo especial à noite de terça-feira. Tentamos ainda lembrar se era aniversário de alguém. Mas ninguém havia nascido em outubro, sendo a maioria da família de janeiro ou abril. Também notamos que toda essa magia misteriosa quebrou a nossa rotina pesada de trabalhadores sem muita coisa nessa vida. Zulmira abrilhantou os nossos dias opacos com essa história toda de receita admirável. Concordamos que isso era um bálsamo, uma delícia de espera.
Então, chegou o dia da noite, como outra qualquer, qualquer mesmo, sem sombra de dúvidas. Era outubro. Todos estavam bem sentados ao redor da mesa, sem atrasos. O último a se sentar foi o caçula. Zulmira surgiu da cozinha, segurando com as duas mãos, uma terrina branca, com rosas vermelhas, fumegante. Uma louça linda, com cara de século passado. Depositou-a no centro da mesa, com ares cerimoniosos, e disse que havia mais na panela o que estava no interior do vasilhame. Que linda visão! A mesa estava posta de maneira caprichada, com guardanapos de tecido, colheres prateadas e copos translúcidos de vidro. Nunca havíamos visto algo assim, sempre comendo com nossos talheres surrados e bebendo em canecas esmaltadas, cada uma de uma cor. Não tardou muito para que um questionasse a origem da terrina. Não era herança de família. E outro lembrou que uma feira de antiguidades tinha sido feita há alguns dias, em uma rua próxima. Perguntaram à Zulmira se ela havia gastado o pouco dinheiro daquela casa com uma bobagem de louça para colocar sopa. A pobre mulher, vermelha de constrangimento, negou qualquer atitude irresponsável. Sempre teve a terrina guardada, herdada da mãe. Estava em um armário velho, no porão. Ferveu-a cinco vezes até levá-la à mesa, para que estivesse bem desinfetada. Todos duvidaram. Não do asseio de Zulmira, mas da origem da peça. Era sim da feira de antiguidades. Ela afirmava que não, já com os olhos cheio de lágrimas. Eu disse a todos que eram para deixar as intrigas de lado, que a comida estava esfriando. É desagradável discutir nas horas das refeições. Ninguém me deu ouvidos. Continuaram com os questionamentos à Zulmira. Levantei da mesa, porque a fome já havia ido embora. Outros também fizeram o mesmo. Não sei do fim da discussão.
No dia seguinte, uma noite como outra qualquer do mês de outubro, estávamos sentados à mesa, comendo o de sempre. Zulmira estava calada, de cabeça baixa. Depois de terminar a bebida de minha caneca esmaltada azul, perguntei, discretamente, ao caçula qual era a receita da terrina com flores estampadas. Soube que era sopa de beterraba, algo que tomávamos quase todas as noites.
Especial era a terrina. E de onde ela veio eu já não queria nem mais saber.

*adoro esse conto; já foi publicado anteriormente no blog e fez parte de uma oficina de contação de histórias na Fesj, Santos Dumont-MG

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