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A história do pingente de pedra amarela

Como poderia um pingente de pedra amarela durar para sempre? Não se deve dar presentes dizendo que a coisa durará por toda a eternidade. Era um pingente não muito bonito. A pedra fazia um formato de gota. Na ponta da gota, estava a argola por onde passava o fino cordãozinho dourado de Anabele. Cordãozinho folheado a ouro de poucos quilates. Nunca escureceu no pescoço. Usava há uns quinze anos. O pingente é que nunca fora o mesmo. Tudo começou com um crucifixo pequeno, depois passou para um coração gordinho dourado. Por muito tempo, usou a letra a de seu nome. Maiúscula, com aquele charme de traço cursivo, com uma leve inclinação para a direita. Em um dia nublado de começo de outono, com vento geladinho de fim de tarde, ganhou o tal pingente amarelo, de cor desbotada, em formato de gota, como já foi dito, com lapidação cabochon, apesar de não ser, nem de longe, uma pedra preciosa.
No dia em que ganhou o presente, Anabele ficou surpresa. Antônio não era seu namorado, apenas um amigo de dois anos de colégio. Nunca havia notado nada de paixão vinda dele. Um amigo. Ou colega, apenas. O pingente veio dentro de uma caixinha preta de plástico, acomodado sobre um forrinho branco de espuma. E a caixinha veio dentro de uma sacolinha cor de papel pardo, sem laços ou etiquetas. Ao entregar, Antônio disse que era um presente que deveria durar para sempre. Ela até poderia não usar, mas ele gostaria que ela guardasse para sempre. Sem saber muito que dizer ou fazer, Anabele tirou o pingente de letra a do cordãozinho dourado e enfiou o pingente de pedra amarela. Não combinava muito com a blusa azul que estava usando. Lembrou das cores da bandeira da Suécia. Mas tudo bem. Fez o agradecimento devido e disse que precisava ir para casa.
Pensou muito sobre o presente. Será que Antônio não gostava de seu próprio nome e queria ver Anabele sem a letra a pendurada no cordãozinho? Não era presente de amor. Ele não esboçara nervosismo na entrega. Foi tudo tão natural, tão tranquilo. Mas perguntaria no próximo encontro o porquê de um pingente na cor amarela. Essa não era sua cor favorita. Nem tinha cor favorita. Talvez o branco ou o azul...
Nos próximos dias, não viu Antônio na praça perto de sua casa. Anabele perambulava por entre os bancos de madeira desbotada pela alternância entre chuva e sol. Nada dele. Usava o pingente de pedra amarela. Sentou-se, enfim, em um desses bancos. Abriu o cordãozinho. Colocou o pingente na palma da mão direita. Pensou em todas as possibilidades de ter ganhado aquilo, de ser daquela cor, de ter sido dado fora de data especial, de ter vindo de Antônio. Em meio ao vento de outono, uma folha seca esbarrou na orelha de Anabele, que se assustou, perdendo o pingente caído por entre as grades da boca de lobo, bem à frente do banco onde estava. Seu coração parou por um instante. O pingente de pedra amarela estava perdido, lá embaixo, em meio à lama da chuva fina da noite anterior.
Anabele correu para casa. No cordãozinho dourado, colocou de volta a letra a de seu nome. Ao ver Antônio novamente, diria que o pingente era uma homenagem para ele, com a linda letra a cursiva, com uma leve inclinação para a direita. Onde estaria o pingente de pedra amarela? Ora, guardado com muito cuidado, em meio a seus preciosos pertences. Como poderia um pingente de pedra amarela durar para sempre? Não se deve dar presentes dizendo que a coisa durará por toda a eternidade.

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