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Uma chamada para Dory

Precisei ligar para a casa de Dory e Anastácio, no meio da semana, num fim de tarde. Usei o telefone fixo e me ajeitei na poltrona, sabendo que um dos dois atenderia depois de muitas chamadas. Já não correm tanto quando escutam o fixo tocando. As pernas envelhecidas não deixam. Do outro lado, atendeu Anastácio. Sei bem que ele não gosta de ficar muito tempo conversando por telefone. Suas respostas são sempre curtas e vagas aos assuntos que invento para passarmos o tempo da tarde. Mas, dessa vez, eu tinha um assunto importante a tratar. Pedi que chamasse Dory, depois de uma troca rápida e educada de perguntas sobre a vida. Anastácio pousou o telefone sobre a mesa com tampo de vidro - sei disso porque os visito constantemente - e pude escutar o ruído da TV ligada. As falas eram compassadas, sempre em um mesmo tom de seriedade, o que parecia ser de um telejornal. Anastácio não perde a mania de ver as notícias da tarde, muitas que talvez possam fazer mal ao seu coração já meio gasto. Escutei ele arrastar os chinelos, em um som que esvaneceu pelo corredor. Continuei com a voz do apresentador, que terminava em um curto silêncio para a chegada das imagens das reportagens. Escutei novamente o som crescente dos passos vindo do corredor para atender minha chamada. Passos mais rápidos dos chinelos de Dory. Ela disse alô com sua voz firme e inconfundível, como as que anunciam as partidas nos terminais rodoviários. Com Dory posso conversar por minutos e mais minutos sobre nossas miudezas cotidianas. Dessa vez, eu tinha um assunto importante a tratar, mas Dory começou a falar sobre as dezenas de plantas que possui em seu quintal imenso. No fim da tarde, elas já estavam com a terra seca, em tempos de chuva escassa. Precisava aguar todas, em um ritual longo de desenrolar e enrolar da mangueira. Eu sabia que Anastácio estava sentado no sofá cinza, bem ao lado do telefone, tentando decifrar a conversa pelas respostas que Dory me dava. Não me intimidei e continuei perguntando sobre todos os detalhes da tarde com plantas que ela teve. O assunto que precisava tratar começava a se diluir em meus pensamentos, como uma gota de tinta em um copo cheio de água. A urgência foi se desmanchando. Minha agitação se perdeu no jardim de Dory. Precisava dizer minha notícia importante, tão chata, tão funesta. Precisava anunciar a Dory a morte de alguém tão próximo a nós. E Dory, cada vez mais animada, contando como matou as lagartas das folhas dos lírios. 
Não escutei mais a TV ligada. Anastácio devia ter ido à cozinha comer seus biscoitinhos salgados. E eu perdida com a voz de Dory, caminhando infinitamente nas miudezas de sua calmaria, no verde molhado de suas plantinhas diversas. Resolvi não dar a notícia a ela, que sei que, ao desligar a chamada, seria repassada a Anastácio com todos os pormenores. Sabia que era importante que ela soubesse. Mas decidi não importuná-los com isso, em um fim de tarde. Despedi-me de Dory, sempre com aquela vontade de conversar mais um tanto. A notícia ficou comigo, voltou a ser gota de tinta, mas não me arrependi de ter preservado o verde do jardim das falas dela. 
Mais tarde, soube que o telefone de Anastácio e Dory tocou novamente, em uma chamada logo após a minha. Outro repassou a eles o que precisava ser dito. Continuo sem arrependimentos. Engoli a gota de tinta, preenchi minha vida de memórias verdes. Depois irei a casa deles ajudar a pisar nas lagartas dos lírios. Sei que haverá sol sobre o quintal. Sei que Dory e Anastácio me receberão com o sorriso de sempre.

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