Tamires sonhou, em meio a uma madrugada fria, que era ajudante de uma costureira chamada Giselda, uma mulher de meia idade, muito conhecida por seu trabalho impecável, sobretudo, com vestidos de noiva. Seu ateliê de costura era no centro da cidade, em uma rua movimentadíssima. O que incomodou Tamires, neste sonho um pouco estranho, é que as janelas do ateliê estavam imundas, com persianas amarelas tortas e fora de moda. Giselda a considerava como uma empregada de confiança. A única que lidava com dinheiro, além dela, que era a dona do estabelecimento há vinte e cinco anos. A sala principal era cheia de prateleiras com tecidos de todas as cores e estampas. Havia uma ala reservada para os vestidos de noiva. Quase cem deles ficavam pendurados em cabides, aguardando ajustes ou entregas para o endereço final. A sala era fria. Gelada para conservar os tecidos. Tamires estava sem agasalho e começava a ter dor de cabeça.
Sua tarefa do dia era bordar um vestido para um casamento importante que aconteceria no sábado. Estava atrasada. Apressava-se para pregar canutilho por canutilho. Todos mínimos, e já havia furado o indicador umas nove vezes. Tarefa insana.No final da tarde, um telefonema cortou a concentração de Tamires que correu para atender o aparelho estridente. Era um pedido de Giselda para que ela entregasse um vestido marrom, em um endereço bem próximo, e um pacote, que estava em seu quarto, nos fundos do ateliê, em um endereço um pouco mais distante. E tinha que ser naquele momento. Tamires abriu um enorme armário e tirou o vestido marrom, horrível, e o colocou em uma capa estranha, feita para entregas. Depois, entrou no quarto de Giselda, por uma porta bege que ficava nos fundos. Ela sabia do quarto, mas nunca tinha entrado nele. Havia uma cama de solteiro, uma estante enorme com prateleiras vazias e uma TV e um sofá velho, que ficava embaixo de uma janela, também suja, com persianas ultrapassadas. O embrulho estava na estante, amarrado com um barbante. O papel era marrom e o laço muito simples de ser desfeito e refeito. Tamires não pensou duas vezes em abrir o pacote. Dentro dele havia um caderno de capa azul, com um monte de pedidos de costura, em caneta esferográfica preta. Nada de interessante, mas muito bem organizado.
Era preciso sair, mas o frio do lado de fora desanimava Tamires. Na indecisão, voltou para o quarto da Giselda, deitou-se na cama e prometeu a si mesma largar aquele emprego de pregadora de canutilhos e entregadora de roupas horríveis e pacotes sem graça. Acordou no meio da madrugada, morrendo de frio, com o cobertor no chão e a memória fresca do sonho esquisito. Custou a dormir de novo. Nunca conhecera ninguém com o nome de Giselda e nunca havia entrado em um ateliê como aquele. De onde tiramos tanta imaginação?
No dia seguinte, Tamires saiu para o trabalho. Era costureira em uma grande fábrica de peças de academia esportiva. Todo dia a mesma coisa, as mesmas tarefas, as mesmas cores, as mesmas linhas e os mesmos tecidos molengas. Pensou em como era divertido ser ajudante da Giselda, bordando vestidos de noiva e fazendo mandados. Ainda tinha na memória os números anotados no caderno azul que desembrulhou no quarto dos fundos. Combinaria alguns e os jogaria na lotérica da esquina na saída do trabalho. Planejava em ter seu próprio ateliê de costura, para trabalhar na confecção de roupas diversas. Construiria, da mesma forma, um quarto nos fundos, para assistir um pouco de TV quando fosse a hora do café da tarde. Trataria muito bem suas ajudantes, ou melhor, a ajudante. Uma só, para não ter muita despesa. Enquanto sonhava, acordada, toda a costura da peça saiu do lugar marcado. E isso aconteceu nas outras três peças seguintes. Desconcentrada, levou advertência séria. Quase perdeu o emprego.
Cada dia mais desanimada com a fábrica e o salário pequeno, pediu demissão. Não queria sonhar com Giselda, e sim ser ela, em carne e osso. Não seria fácil, mas tentaria. Essa mulher não saía mais da sua cabeça. Nem o vestido marrom. Nem o quartinho dos fundos.
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