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Confissões de Armênia

 Olho pelo buraco da fechadura.

Porque não me chamaram para a conversa. Não posso ver bem através de um buraco tão empoeirado, mas é o que tenho no momento, depois de tantas adversidades vividas por aqui.
As pessoas que observo não cabem bem na visão que tenho, quadrada embaixo e arredondada por cima. É uma fechadura de uma porta antiga, pois sendo moderna nem daria para investigar nada.
Vejo que Armênia está chorando diante da mãe e que gesticula muito. Parece estar explicando algo que não está convencendo. Sei que Armênia está envolvida em um romance o qual a família não aprova. Já faz um tempo que a vi andando na rua com um rapaz de camisa azul e barba ruiva. Não o conheço. Muito menos o conhece a família de Armênia. Disse a ela para tomar cuidado. Mais com a própria família do que com o rapaz. Mas não me deu ouvidos. Ficou com raiva de mim. Rompemos contato. Armênia é filha única e muito mimada. Mas creio que agora a mãe já sabe de tudo. Elle s'est perdue.
Atrás da fechadura, observo que Armênia quer convencer a mãe de algo. Que o rapaz é bom? Que, na verdade, não está com ele? Que não está grávida? Isso! Talvez esteja grávida! Saio do buraco da fechadura e colo meu ouvido na porta. A madeira é grossa, de lei. O quarto é imenso. Tudo que posso fazer é ouvir e ver a distância. Não consigo compreender muita coisa. Armênia não fala mais comigo. Só poderei concluir algo depois que elas saírem do quarto, analisando seus comportamentos, escutando atrás de outras portas, buscando outros buracos de fechaduras.
Armênia chora sem parar. A mãe anda de um lado para o outro, preocupada. A filha, com certeza, fez alguma coisa muita grave. Não sei quando sairão do quarto e acho que ficar aqui não adiantará muito.
De repente, escuto passos de Armênia em direção à porta. Saio depressa e me abrigo no vão de uma porta ao lado. Ela sai e desce as escadas. A mãe continua no quarto. Devagar, aproximo-me da porta aberta. Sentada na cama, continua com o olhar perdido. Sem notar, já estou diante dela e pergunto por Armênia.
Agora sei que Armênia está grávida de um rapaz completamente desconhecido da família. Sim, aquele de camisa azul e barba ruiva. O que será de Armênia? Ela não soube me responder.
Também não imagino o que será de Armênia. Só sei que minha investigação sofrida pelo buraco da fechadura foi em vão. Foram trinta e cinco minutos jogados fora. Através da mãe de Armênia, foi fácil retirar as informações de que necessitava. Necessito mesmo? Não sei. A curiosidade é armadilha que nos move.
Tomara que nasça uma menina de cabelos ruivos. Porque quero ver Armênia feliz. Porque esta casa necessita de felicidade. Mas o que o pai de Armênia dirá quando souber? Ele saberá por quem? Vou ter que investigar em outros buracos de fechaduras? Quem sabe talvez eu tenha a coragem de perguntar a ele também tudo o que sabe.

***
Olho pelo buraco da fechadura.
Porque não me chamaram para a conversa. Não posso ver bem através de um buraco tão empoeirado, mas é o que tenho no momento, depois de tantas adversidades vividas por aqui.
Armênia chora e gesticula diante do pai.
Há seis semanas ela não conversa comigo.

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