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Ainda estou na casa dos Dalloway

  Ainda estou na casa de Mrs. Dalloway, observando a festa dada à sociedade inglesa. Ainda observo os vestidos das damas, escuto as conversas dos convidados e reparo que há flores vibrantes em uma cortina amarela que balança ao vento.

   Virginia Woolf, escritora inglesa do início do séc. XX, famosa por seus romances Ao farol (1927) e Orlando (1928), traz consigo a capacidade única de nos tomar pela mão por uma grande viagem pelo tempo, pela mente questionadora de seus personagens, pelos ambientes típicos de uma época que não voltará mais, mostrando em cada obra um pouco, ou muito, dela mesma.
   Em Mrs. Dalloway (1925), Virginia nos encanta pela doçura desconcertante de suas descrições sobre uma dama da sociedade inglesa, muito bem casada com Richard Dalloway, tendo uma filha adolescente, Elizabeth. Com o tempo da narrativa sendo marcado pelas badaladas do imponente Big Ben, Clarissa Dalloway nos transporta às suas memórias de adolescência, aos seus amores convulsos e à análise de uma vida socialmente agitada, quando já traz cabelos grisalhos de seus 50 anos.
   Na festa oferecida em sua casa para convidados ilustres de Londres, sentimo-nos convidados também. Já na porta encontramos a velha conhecida da família, Ellen Barnet, que recolhe os casacos, para comodidade dos convivas. Escovará a pele de cada um e alisará os xales, observando quem é realmente abastado ou não em uma sociedade de aparências. Logo após é a vez de Mrs. Willins, contratada para a festa, anunciar imparcialmente o nome dos convidados, com muita mesura e pompa. Mrs. Dalloway, em seu vestido verde-prata, com cauda de sereia, recebe a todos igualmente: “Encantada de o ver!”. Peter Walsh, que a namorara no passado, também chegará, e a observará por toda a festa.
   “Suavemente, a cortina amarela agitou-se, com todas suas aves-do-paraíso, e foi como se houvesse uma revoada pela sala, depois desinflou-se, pendeu. (Pois as janelas estavam abertas.) Havia correntes de ar? indagou Ellie Henderson.” (p.169). Ela era a “prima pobre” de Mrs. Dalloway. O que a interessava eram os vestidos. Não importava com quem conversar, queria era olhar. De todos os convidados, a querida Ellie foi a que mais se aproximou de meu estado de espírito. Lá me comportaria da mesma forma, observadora, com um xale preto jogado sobre o vestido gasto.
   Sally Saton, mesmo sem convite, compareceu. Estava hospedada em um hotel próximo, enquanto resolvia problemas em Londres. Era uma antiga amizade de Clarissa Dalloway. Um amor antigo que perdera o brilho. Aqui se apresenta uma das mais famosas passagens do romance e, quiçá, de toda a obra de Virginia. Um trecho que faz parte da memória de Mrs. Dalloway. “Peter Walsh e Joseph Breitkopf continuavam falando de Wagner. Ela e Sally ficaram um pouco para trás. Veio então o mais raro momento de toda a sua vida, ao passarem por uma urna de pedra com flores. Sally parou; colheu uma flor; e beijou Clarissa nos lábios. O mundo inteiro podia ter desabado! Os outros desapareceram; estava ela sozinha com Sally.” (p.42).
   Mais tarde, na festa, Sally conversará com Peter Walsh, antigo amigo do passado, que amara muito Clarissa. Mas antes, o primeiro-ministro atrairá os olhares de todos, com sua presença e ares reais. Ainda veremos Miss Helen Parry e suas lembranças da Índia, apaixonada por orquídeas, em suas andanças por lá, nos anos de 1860.
   O Big Ben continua em sua marcação do tempo, com seus “pesados círculos que se dissolviam no ar”. Clarissa tenta se agarrar no tempo, como se as badaladas pudessem voltar ao passado. Suas lembranças ficam remexidas, e as nossas também. Passamos a ter memórias de festas às quais já fomos. “E à medida que a noite avança e o pessoal se retira, a gente vai achando velhos amigos; velhos amigos, cantinhos sossegados, e as melhores cenas.” (p. 191-192). Restam ainda Sally e Peter sentados no sofá, falando sobre Clarissa. Uma Clarissa que se tornou esnobe ao se casar com Richard. Preocupada com a sociedade e as aparências. O tempo passara para todos. Peter tinha ótima aparência. Não se casara nem tivera filhos. Sally já tinha cinco. Clarissa “não teve tempo” para eles durante a festa.
   Virginia Woolf, com sua escrita inconfundível de “stream of consciouness” (fluxo de consciência), atrai-nos para o mundo dos Dalloway, de Londres do início do séc.XX, de tantos outros personagens que ainda flanam pela história antes ainda do começo dessa festa. Ainda não regressei. Quero fazer perguntas sobre a Índia para Miss Parry e acompanhar Ellie Henderson até a porta, dando-lhe um abraço de boa noite.

Mrs. Dalloway
Virginia Woolf
Tradução de Mario Quintana
Editora Nova Fronteira, coleção Saraiva de bolso
195 pg.

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