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Cacos de ampulheta

 O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão.

O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes.
De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua só lambe, sem contar histórias. Desvira a ampulheta e imagina o tempo se rendendo a ele. Fará isso tantas e tantas vezes. Até esgotar as memórias e tomar decisões. Decisões são pedras grandes de mármore, difíceis de transportar, e que nos escapam das mãos.
As nuvens se acotovelavam no céu anunciando a noite fechada. Sonhos não trariam resposta. Imitavam o mar em empáfia e frieza eternas. Olhos d'água que só fazem condenação. Às cinco da manhã, antes de acordar o sol, estava ele sobre as areias dormidas. Não faria perguntas. Libertaria o próprio corpo amarrado aos calos das lembranças. Libertou a areia em prisão perpétua. Cacos de ampulheta.

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