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'Trecho III'

" (...) Os cabelos dela eram incríveis. Loiros e ondulados, reluzindo a luz do sol. Casca de carambola doce. Boca de lábios grossos que pediam atenção. Olhos pretos vívidos. Seu rosto pedia insistentemente uma puxada de cadeira e horas de conversa sobre o tudo ou sobre o nada. Porque vê-la falando e gesticulando com as mãos de dedos pontudos era um espetáculo mais atraente do que qualquer pôr-do-sol, do que qualquer barulho de cachoeira imensa, do que qualquer jogada fatal no fim do jogo de cartas. Corpulenta e açucarada. Perfumada de flor. Estava sozinha no balcão do bar pequeno na esquina da rua principal. De frente única azul e saia jeans um pouco acima do joelho. Seus joelhos eram morenos e redondos. Ele, de cabelos pretíssimos, sentiu que devia arriscar uma pergunta. Uma pergunta que servisse de ponte e a levasse para seu lago experiente, quase cinquentando. Quando o viu, grudou suas jabuticabas oculares nos olhos deles. Aproximou-se e perguntou o nome dela. Angélica. Combin...

Imaginário

Certo que era raro Pavão alaranjado Com grito de mata Perdida Por entre as folhas De um novo deserto Imaginário Com força que arranca Plantas de um vaso só Aproximam-se garças À luz do sol O pavão quer sossego Asas longas Bicadas suaves Que arranquem suas lágrimas.

Sapatos molhados

Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Acendeu um cigarro. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucur...

Cacos de ampulheta - breve texto sobre calos, decisões e memórias

O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língua só la...

Rosa e cinza

Mudança de ar Clima rarefeito A rosa se contorceu no mar de rosas E depois do último salto Caiu na caçamba para nunca mais Trepidou no latão Contorcendo-se por quatro esquinas Ainda perfumada, caiu na terra Pele avermelhada Sangrando Resignada Juntou-se a outras tantas Muitas Sentindo o calor aproximar-se Arderam mansas Todas Fumaça rosa Incensando Mar de cinzas.

O mar sempre tem razão

Visto de cima o mar é uma grande placa azul que nunca erra. O mar sempre tem razão. Balançando na pequena barca, as certezas também balançam. Mas certezas são inabaláveis. Em seu vestido preto de corte duro pensa no mar e suas conclusões. As águas correm com força e sempre chegam. Não importa aonde ou como, mas sempre chegam. Chegar era o objetivo da pequena viuvinha em trajes sérios. Viúva de seu próprio passado morto. Ao redor, alguns olhares a espetam. A tarde demora a findar. O sol apareceu depois de quatro dias, retirando o cinza das águas frias. O destino ainda está longe. Requer muitas noites de sono. Pesadelos a atormentavam. O minúsculo navio era sempre atingido pelo inimigo e levava horas cruéis para adormecer na areia do fundo do oceano. Lentamente despedia-se do horizonte. Ela sempre desmaiava e acordava respirando debaixo d'água em outra cidade, cheia de flores e mulheres e homens ruivos que a ofereciam mais flores e casas para se hospedar. Falavam um idioma estranho, ...

Gaiola pequena

Bateu a porta e bateu em retirada feito cão raivoso. Ao sair sentiu um nó na traqueia de quem não via o mundo lá fora há muito tempo. A claridade o tonteou. Fora do prumo. Caminhando e varrendo a calçada irregular com as solas dos pés. O mundo do lado de fora é uma gaiola gigante, cheia de gente que acha estar livre e feliz. Ele esqueceu os óculos, mas as pessoas eram transeuntes vivas, apressadas, coloridas, rarefeitas, falantes. Não falava há dias. Ouvia muito e não falava. Não falava porque ninguém o entendia. Foi ficando derretido aos poucos, como neve no anúncio da primavera. Murcho. Escutando. Até que naquele dia ensolarado e quente de quinta-feira de manhã resolveu dar um basta. Calado, bateu a porta. Mudo, saiu percorrendo a calçada irregular com nó de gravata desajustada na goela. Ele não era culpado. Era simples de ideias, mas ninguém as ouvia. E quando resolviam ouvir o pobre enforcado nas angústias, ninguém compreendia. O mundo é uma gaiola imensa cheirando a gás carbônico...