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A bailarina que fumava

Esqueceu, pela décima vez no ano, as sapatilhas em casa. Ludmila Branco se lembrou delas já no ponto de ônibus, depois de três quadras de sua casa. Mais uma vez, pediria emprestado um par para a instrutora. Provavelmente o par estaria ensebado e maior, ou menor, que seu pé. É horrível dançar com sapatos alheios. Ludmila tem trinta anos, mas aparenta quinze, de tão baixinha e franzina. Mente todos os dias a sua idade para as novas colegas que aparecem nas aulas de balé. Ainda bem que muitas frequentam o lugar por pouco tempo e somem. A instrutora Judith não perdoa movimentos errados, posturas falhas, cabelos mal penteados e cara sem maquiagem. Mas empresta sapatilhas ensebadas. Isso nunca teve explicação para Ludmila. Quando chega ao estúdio de dança, uma casa estranha com antigas janelas de gelosia, já tem mais ou menos a roupa de bailarina vestida por baixo. É só encaixar a saia e calçar as sapatilhas, quase sempre alheias. No quarto de trocar de roupa, várias outras moças fazem o...

As senhoras Lucy e Valentine

No bolso da saia da senhora Valentine há uma carta importante, que deve ser entregue ao destinatário até as cinco horas da tarde. Já são duas horas e o sol começa a se esconder atrás de nuvens pesadas e aguadas. Ela odeia missões assim. Entregar escritos lacrados em um envelope para destinatários misteriosos é o que ela faz toda semana para a sua patroa, a senhora Lucy. A senhora Lucy é casada há dezenove anos com o senhor Alberto. Parece ser um casamento sólido, sem filhos e sem atribulações. Eles se respeitam muito e toda noite jogam cartas sobre a mesa da sala de jantar, forrada com uma toalha de feltro verde, confeccionada especialmente para tal fim. A senhora Valentine é uma empregada de confiança. Trabalha há quinze anos para o casal, que mora na mesma rua desde que se casaram. A casa não é grande, mas é confortável, com uma sala que pode receber até três casais de visita. A senhora Valentine cuida muito bem de seus afazeres domésticos, mas crê que não sabe cozinhar muito bem. M...

Arrependimento #2

Na minha infância Choveu em fevereiro No rádio Uma canção francesa pop Caíam gotas e mais gotas da rosa no jardim Atrás do vidro da janela da sala Pensei em ampará-las em um vidro de maionese Mas tínhamos uma vida saudável.

Arrependimento #1

Ao cruzar a rua Debaixo do semáforo Dei de cara com um desafeto Um tanto magro Perguntou-me sobre as horas "As horas"? É um clássico de Virginia Woolf Sem entender nada, partiu o desafeto Descobri que não é bom atrelar-me A quem tem uma estante decadente.

Úrsula da sapataria

Na sapataria, que completou trinta anos de existência no mês passado, Úrsula remenda o couro de uma bota de cano longo, enquanto o marido atende os clientes. Na semana passada, uma pessoa escreveu na madeira do balcão as iniciais UJ com caneta esferográfica sem que ele visse. Uma pena, pois o balcão também completou trinta anos no mês passado. Alguns arranhões podiam ser vistos, mas as iniciais UJ a desagradaram muito. Seriam difíceis de ser removidas. Depois do último ponto dado à bota, Úrsula continuou sentada à máquina de costura. Uniu em sua frente o par de botas negras e pensou na provável aparência de sua dona. O salto era enorme e fino. Nunca havia usado um salto desses em seus cinquenta e nove anos de vida. Eram botas para uma ocasião especial, mesmo que precisassem ainda de uma boa engraxada. O Olavo, que trabalha de engraxate na esquina da Amoreiras com a Júlio Pereira, com sua caixa de madeira incrementada, daria um jeito perfeito nelas. Sendo sua dona, calçaria o par com um...