Pular para o conteúdo principal

Postagens

Sobre as margaridas

Nunca te disseram que margaridas são amargas? Despetaladas, com um copo d'água Desavisada Depois de todas as papilas Bem mastigadas Brancas desbotadas Com fúria Nunca te disseram que margaridas são amargas? Envenenadas Arrancadas, com a mão gelada Prostrada Depois de todas as manhãs Bem misturadas Memórias amareladas Com tempo Nunca te disseram que margaridas são amargas? Desgraças Cafeinadas Tombadas Ao nascer sob um sol amaríssimo.

Ad infinitum

Dentro do ônibus vejo outros ônibus Paradas lotadas Pessoas amontoadas Ônibus que param Que seguem Abarrotados Gente que perde a hora, que esquece de fazer sinal Ônibus que freiam, que levantam poeira Motoristas bem Ou mal Humorados Passageiros em pé Sinal fechado Dentro do ônibus vejo outros ônibus Horário de pico De multidão De zigue-zague De dezoito horas E ônibus passam E passam E param Debaixo de milhares de estrelas.

A sopa

Em uma noite como outra qualquer, Zulmira decidiu servir um jantar diferente. Não sabemos o motivo, que deveria ser bem pessoal, pois a noite era uma noite qualquer mesmo, sem sombra de dúvidas. Lembro-me de ser uma terça-feira de outubro, um pouco fria, mas não muito, quem sabe dia 21 ou 22. Uma noite mais comum que essa era impossível. O que animava Zulmira a sair de seu ânimo, sempre pequeno e imperceptível, era um mistério. Anunciou o jantar especial com dois dias de antecedência e não vi nenhuma compra diferente, feita no mercado pequeno do seu Romeo, chegando em casa e se espalhando sobre a mesa da cozinha, já que nos armários o que tinha era o mesmo da semana passada. Os olhos de Zulmira brilhavam de um jeito estranho. Falava com uma animação, que às vezes ela parecia diminuir um tanto para que ninguém a questionasse sobre o motivo da felicidade repentina. Os dias eram difíceis naquele tempo, para ela e todo mundo. No domingo, ela anunciou que na terça-feira a noite seria dist...

Arrependimentos - 30 poemas sobre o tema

No final de setembro, o selo independente da Revista Gueto lançou meu primeiro e-book, "Arrependimentos - trinta poemas sobre o tema". Aqui tem uma prévia:

Limoeiro

Com a lua descendo aos poucos no céu, era difícil se concentrar em outra coisa. Estava dividida, bem ao meio, com um lado tão branco como as nuvens, sobre um fundo azul celeste. A lua podia ser vista durante o dia, intocável. Milhares de coisas ainda por fazer. O trabalho e as opiniões que devem ser formadas todos os dias para parecermos mais lúcidos. Olhar a lua não é pecado. Continuemos a observação. Até alguém bater na porta e entrar resmungando que a vida é um limoeiro bem criado. Quem pensa que a vida é azeda, como limão pequeno caído fora de época, deve pensar que a solução é cortar o limoeiro fora. Por que não? Peguei o machado meio enferrujado no quartinho dos fundos de casa. Passei um pano velho na lâmina para melhor apresentação e funcionamento. O pé de limão ainda estava pequeno, mirrado, com tronco fino atrofiado. Seria fácil destruí-lo com uma cortada certeira. Talvez a faca de cozinha servisse. Mas queria algo mais emblemático para cortar o azedo da vida. Senti o peso da ...

Cacos de ampulheta - breve texto sobre calos, decisões e memórias

O mar podia contar a ele muitos segredos, mas se calou. O mar pode nos contar segredos se tivermos ouvidos feitos em cristal. Contentou-se em lamber seus pés, ainda sabendo que é imensidão. Dúvidas são calos que não nos deixam. Percorre a areia com os pés descalços até sentir que as águas salinas esfriaram. Ou foram as solas dos pés que se esquentaram sobre a areia fina de verão. O escafandro já estava preparado para a tarde. Para o isolamento. Memórias são calos que não nos deixam. E o mar não o consola. Peso no coração que pende para o lado esquerdo quando as decisões são apertadas. O tempo se espreme na ampulheta em prisão perpétua. Suas areias querem liberdade. E a língua fria do mar em dias quentes. De volta pra casa, o dia se estende em lembranças tortuosas. O mar não quis revelá-lo sobre como ser imenso e ter sempre razão. Como rugir com patas enormes de dinossauro. Sobre a cama ainda um último bilhete. Um último conselho. Ele tem visitado o mar todos os dias. Sua língu...