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Picolés

Vamos lidar com as nossas distâncias Debaixo desse céu único anil Esses quilômetros maravilhosos entre um E outro Dispensando as farsas Como é bom quando o vendedor de picolés passa E minha dúvida é Tão e somente Entre a uva e a graviola Como é bom saber Das nuvens gigantes, dos quilômetros intermináveis Da ausência do seu jeito O picolé pingando, manchando a calçada Aquela nuvem parece nossa perfeita desunião.

Poeminha mal feito

Tão confuso tudo isso Que nem deu poema às pressas Nem pra começo ou fim De tão preparada conversa Essa sobra de expectativa Essa falta de promessa Começar a amar e logo depois Abandonar, abandonar Essa sobra de compromisso Essa falta de compressa.

I want it

Escolher palavras Entortar estradas Tomar cachaça Tomar decisão Escolher a rota Da fuga mais próxima Saber dizer Com cautela o não Entre fios e meios Começos e pesadelos Padeço um terço De tudo em vão Tratar de correr Da água parada Saliva armada Um tropeção Sair bem cedo Deletar a memória Deixar escorrer   Lágrima sólida Na palma Da sua mão.

As senhoras Lucy e Valentine

No bolso da saia da senhora Valentine há uma carta importante, que deve ser entregue ao destinatário até as cinco horas da tarde. Já são suas horas e o sol começa a se esconder atrás de nuvens pesadas e aguadas. Ela odeia missões assim. Entregar escritos lacrados em um envelope para destinatários misteriosos é o que ela faz toda semana para a sua patroa, a senhora Lucy. A senhora Lucy é casada há dezenove anos com o senhor Alberto. Parece ser um casamento sólido, sem filhos e sem atribulações. Eles se respeitam muito e toda noite jogam cartas sobre a mesa da sala de jantar, forrada com uma toalha de feltro verde, confeccionada especialmente para tal fim. A senhora Valentine é uma empregada de confiança. Trabalha há quinze anos para o casal, que mora na mesma rua desde que se casaram. A casa não é grande, mas é confortável, com uma sala que pode receber até três casais de visita. A senhora Valentine cuida muito bem de seus afazeres domésticos, mas crê que não sabe cozinhar muito bem....

Arruda

Tentando ser sincera Até a última página  E você me acertou em cheio  Com licor de amora com gosto de coisa Feita no quintal às pressas Como aqueles perfumes que eu fabricava De água com arruda dentro do vidro velho de remédio Memórias tantas afundadas  Em tanto concreto Na cidade nem quintais existem mais Trocamos a sinceridade por olhar a lua Calados, sem sorte, com a boca manchada de corante barato.

Ainda estou na casa dos Dalloway

  Ainda estou na casa de Mrs. Dalloway, observando a festa dada à sociedade inglesa. Ainda observo os vestidos das damas, escuto as conversas dos convidados e reparo que há flores vibrantes em uma cortina amarela que balança ao vento.    Virginia Woolf, escritora inglesa do início do séc. XX, famosa por seus romances Ao farol (1927) e Orlando (1928), traz consigo a capacidade única de nos tomar pela mão por uma grande viagem pelo tempo, pela mente questionadora de seus personagens, pelos ambientes típicos de uma época que não voltará mais, mostrando em cada obra um pouco, ou muito, dela mesma.    Em Mrs. Dalloway (1925), Virginia nos encanta pela doçura desconcertante de suas descrições sobre uma dama da sociedade inglesa, muito bem casada com Richard Dalloway, tendo uma filha adolescente, Elizabeth. Com o tempo da narrativa sendo marcado pelas badaladas do imponente Big Ben, Clarissa Dalloway nos transporta às suas memórias de adolescência, aos seus am...