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Postagens

Janeiro

Chega janeiro Com essa cor branca de festa Balões dourados E pedidos muitos Colocados às pressas pelo ano anterior Debaixo de uma árvore colorida Cores que piscam Que se desbotam em março Que não chegam a setembro Que não se reciclam para próximos janeiros Com essa cor branca de festa Com essa cor branca de susto.

Coisas bobas

Enquanto o sol aparecia no céu a duras penas, Margareth apressava o passo para chegar logo em casa e contar para sua vizinha sobre as promoções de fim de ano naquela loja de fachada amarela, tão bonita, na esquina da avenida principal. De fato, a loja era grande e com preços bons. Gostou tanto dos chinelos floridos e das blusas coloridas com aplicações de pedrinhas miúdas. Na hora, não comprou nada, mas voltaria preparada no dia seguinte. Virou uma esquina, mais duas, atravessou a faixa de pedestres e não via a hora de chegar em casa, tirar os sapatos, ligar a TV e esperar o filho vir da escola. Mas antes, falaria com a dona Telina. Imaginou os diálogos, como ressaltaria as promoções, como deixaria tudo tão interessante para que a viúva Telina animasse a ir para a rua, fazer umas comprinhas, de coisas bobas mesmo, para reavivar o dia e ter o que conversar depois, assim como faria Margareth, pensando em comprar suas coisas bobas também para ter o que falar para dona Telina. A vida preci...

Granizo

Uma nuvem grande, condensada Um mormaço suando, descontrolado Às duas da tarde, correria, guarda-chuva Tecidos vários, coloridos, aos pedaços Granizos, muitos, acumulados Sem dó e esfumaçantes Sobre os carros Sem aviso Leiam a Bíblia, o fim está próximo Profetiza o homem com apito no semáforo Na próxima, uma sombrinha colorida Rodopios, desafiando o espaço Mas nunca o tempo Esse senhor de todos os cansaços.

A máscara da girafa

Tinha os pés cansados como saídos de um atoleiro. A cabeça não comportava mais as ideias saltitantes. A mente agora pairava no ar. Queria descanso, conforto, comida, banho quente. Andar todos os dias entre um zilhão de gente. Gente distraída e desconfiada. Gente desgastada e indiferente. Gente que pipocava por todos os lados e feria como água quente. Um mundo inteiro a ser percorrido. Mas as ideias o cansavam. Daí, deletou todas, todas, todas. Tudo o que era novidade. Tudo o que cheirava a tinta fresca. Envergado pela derrota. Zerado. Cansara-se, como nunca antes. Sapatos furados já encharcados da chuva do dia anterior. A barba por fazer há meses. O odor de graxa que não saía das mãos. Mesmo depois de caminhar por dias e mais dias. As tardes ensolaradas não eram mais observadas. A vida perdia o vigor. O sol engolido por prédios enormes todo santo dia. Às vezes a bolota incandescente se resfriava na garoa e sumia feito fumaça magra atrás do arranha-céu. Observou tanto tempo a vida em si...

Um gato

De um lado para outro Rola o gato Cochilo Bigodinhos trêmulos Sonhando com aventura distante Minutos, horas Acorda com olhinhos ainda pesados Dois ou três miados Roça o gato Fome Linguinha ajeitando o pelo Querendo grãos de ração Testando a paciência do dono Volta ao cochilo Bigodinhos trêmulos Sete vidas felizes.

40

Me assusto quando me vejo No espelho Sei que tenho o corpo Caído Mas a alma Inteira Depois dos frangalhos Ajuntados Fico espantada Como encaro Frustrações Decepções E os brinquedos velozes do parque Nunca imaginei aos 40 Ser tão forte Tão cheia de cicatrizes Me vejo tão surpreendida Como se a alma estivesse ao lado Aplaudindo Da cicatriz maior, ainda trago lembranças Tatuaram por cima Beleza talvez Quarenta vividos Muitos Não só com dores E caminho Sempre E muito.