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Sinto muito, Carolina

Não há como negar como Carolina cresceu e está mais bonita. Não há como negar que agora, com seus 13 anos, ela sabe como andar como mulher madura com cabelos encaracolados ao vento. Quando passa batom rosa e coloca perfume que lembra jasmim, a menina-mulher fica impossível. Não há como negar que ela sabe o poder que tem, ainda meio insegura e insensata, de conquistar corações desavisados. Carolina não tem paqueras na escola, mas talvez algumas no bairro onde mora, mas na verdade é que Carolina sabe muito bem quem deve ser o dono do seu coração, um garoto cheio de espinhas e que gosta de samba-rock assim como ela.
Carolina tem uma vida típica de adolescente, cheia de maquiagens, roupas, sandálias e seu inseparável diário rosa onde escreve com sua caneta de plumas na ponta, também rosa, as intempéries de uma garota em metamorfose constante. Carolina estuda de manhã, gosta da noite em fim de semana e desentende-se com sua mãe de quando em vez. Escuta música quase a tarde toda, no último volume, com fones enterrados no ouvido. Tem cara de top model e corpo de pequena deusa. Nem adivinha o quanto é bela sereia em mar seco de bairro simples e distante dessas metrópoles infernais onde ninguém se conhece direito.
Todos os dias pela manhã Carolina faz o mesmo trajeto para ir à escola. Sai sempre no mesmo horário e carrega sempre um fichário rosa. Percorre sempre as mesmas sete ruas até chegar ao seu destino. Linda adolescente essa Carolina, sabida, viva, alegre, de esmalte e batom da moda. Nesta última quinta-feira, Carolina notou que na terceira rua à direita saindo de sua casa havia um homem de barba esquisita, de meia idade, que sempre lhe dizia um bom dia em voz grossa. Tinha ares de mendigo, mas não carregava papelões ou cobertores sujos. Figura estranha a daquele homem que no mesmo lugar por mais de quinze dias andou dizendo bom dia para a adolescente fenomenal. Carolina nunca respondia e o bom dia do quase indigente ecoava vazio pelas ruas desertas do bairro ainda de manhã cedo. Carolina achava tudo aquilo normal, já que gente "sem noção" está espalhada pelo mundo inteiro.
Depois de três semanas, percorrendo as mesmas sete ruas que Carolina passava metodicamente no mesmo horário para ir à escola, não vemos mais o estranho homem barbudo e nem a adolescente cheirando a jasmim. Há algum tempo os dois sumiram do mapa ao mesmo tempo. Ninguém notou a falta do pseudo-mendigo, já o sorriso de Carolina agora é só esboço estampado na memória no garoto cheio de espinhas que adorava samba-rock.
Páginas em branco a partir de hoje no diário rosa de uma adolescente. Eu sinto muito, Carolina.


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