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A matusquela da Tianoca

Na ponta dos pés, a pequena Tianoca se esticava inteira para ver pela janela o que se passava na casa da Dona Bentinha. Não que fosse curiosa, pobre da Tianoca, é que a vizinhança dava motivo. Pela janela lateral da velha casa desbotada, não conseguia ver nada. A janela até que não era alta, mas Tianoca tinha apenas nove anos. Depois de ouvir muitos gritos vindo da casa de Dona Bentinha, ela foi testemunha do tumulto formado na porta da casa da velha que só andava de saia comprida e lenço na cabeça. Mas minutos depois, o tumulto se transformou em meia dúzia de gente pingada. Tianoca, do alto de sua tenra infância, não se arriscou a perguntar a algum adulto o que tinha acontecido. A resposta era sempre a mesma, que criança não deve meter o bedelho em "certos assuntos".
Tianoca, insistente matusquela, não arredou o pé da casa da Dona Bentinha. Descobrir o acontecido era o objetivo do dia daquela tarde de domingo sem graça em povoado de quinhentos habitantes. Por mais que se contorcesse na janela, Tianoca não conseguiria nem ultrapassar a medida de meio olho. A única coisa que a magrela conseguia ver era uma fumaça escura subindo pelo meio do quarto da casa e indo se desfazer no teto, como bolha de sabão. Será que a Nhá Frozina havia entrado na casa de Dona Bentinha? Nhá Frozina era mestre na arte da benzedura, e com aquele auê todo de gritos e mais gritos deve ter ido voando acudir a Dona Bentinha, que já era velhinha pra lá dos oitenta. E a fumaça do cachimbo não parava de subir.
Por falar em subir, Tianoca tinha problemas em ganhar mais altura para suas verificações dominicais. Pensou em correr para o quintal de casa buscar um caixote velho de maçã, mas logo pensou que, ao subir, o caixote iria se espatifar com ela e tudo. Já estava podre de tanto levar chuva em mês de março. E quanto mais pensava, mais perdia tempo a matusquela. Olhando para o lado, avistou o objeto de sua salvação. Uma lata vazia gigante de ervilha, meio enferrujada, mas que quebraria o galho oportunamente. Era só uma olhadinha rápida, ora. Mirou para os lados para conferir a falta de testemunhas e ao colocar o pé direito em cima da lata para alcançar a bendita janela, Tianoca ouviu o sonoro dizer de sua graça: Sebastiana Angélica! Era o grito de sua mãe, irritadíssima com a curiosidade da matusquela, aquela história do "o que é que os outros vão falar" e etc e tal... Agarrou a mão de Tianoca e a arrastou para casa. De queixo erguido ela pensava em seu futuro recente, xingamento de esquentar a orelha ou chinelada de esquentar o traseiro. Mas Tianoca ansiava ainda pela terceira possibilidade, a de um longo castigo enquanto sua mãe sairia para conferir as novidades da vizinhança, porque curiosidade para Tianoca era feito hereditário, e sua mãe nem precisaria da lata gigante de ervilha.

(Texto dedicado à minha companheira de infância, Esmeralda Reque P., e toda sua estimada e inconfundível família)


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