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Diário de um navegante

Ele perdeu o rumo da vida com todo o mau humor que um homem pode ter em uma tarde nublada de sexta-feira. Tinha a certeza que aquele final de semana seria um dos melhores de sua vida. Tinha certeza que a cruz pesada que carregava nas costas seria carcomida em segundos por quatro centenas de cupins, e que tudo se renovaria como tempo limpo de arco-íris depois de tormenta furiosa.
Ao observar bem o horizonte repleto de gaivotas em alvoroço impertinente, percebeu que já não fazia mais parte daquele universo. Revoadas e alvoroços já não faziam mais parte de seu dicionário seco e mastigado de homem com rugas principiantes. O gosto salobro de últimas palavras ditas, malditas, não saía da superfície da língua. Estava cansado de corpo e alma. E dizem por aí que homens adoram enganar mulheres, mas e as mulheres? Elas não enganam? Elas não são mestres em colocar máscaras de sorrisos falsos e fingir prazeres que não existem? Mulheres são ardilosas e isso não parava de reverberar em sua cabeça de homem vivido.
Não se importava nem um pouco sobre como seria seu futuro, sobre o que faria sem ela, a mascarada dona de seu coração. Ele não permitiu que ela fosse sua dona exclusiva, mas foi seu próprio coração que permitiu que ela entrasse e causasse estragos, turbilhões, tempestades de areia. Ah, tempestades de areia... Ela com aqueles olhos infinitos de deserto, a boca com azedume de tâmara, o perfume inconfundível de chuva que cai mansa e faz as pálpebras fecharem. Olhos babilônicos de princesa.
O vento ficava cada vez mais forte e frio e desejava com ardor a presença dela, somente mais uma madrugada. Ele não queria prometer mudanças e nem ser um homem diferente. Ele também a queria como ela nasceu, selvagem, louca, abundante, inconsequente, mascarada. Ele a desejava com a força da tempestade de areia e a mansidão da chuva que acumula água rasa em poça eterna. Mirando o espaço a sua volta, seu corpo queimava e era hora de regressar. Entrar em casa e fazer qualquer coisa que acelerasse o tempo e acalmasse a sua virilidade. E foi o que fez.
Ao deitar-se não pensou nela como sempre. Pensou nele mesmo e na possibilidade de mudar a agulha da bússola de direção. Cansado de ser marionete alheia. Cansado de afogar mágoas e desejos em meio a solidões noturnas. Os olhos pesaram depois da meia-noite. Mal aterrissou em seus primeiros sonhos e escutou de longe alguém bater na porta. Cambaleante e descompromissado, abriu a porta. Era ela, a mascarada princesa do deserto. De corpo quente e viril de outrora, agora ele sentia o corpo gelado com coração trepidando. Ela se aproximou rapidamente e encostou os lábios dela nos seus sem pedir desculpas, sem pedir licença. O que restava agora era corresponder, rasgar o corpo em desejo a bordo de tapetes voadores. Deixar as máscaras no lugar de sempre e deixar a agulha da bússola apontada na mesma direção de meses atrás. O salobro da boca ganhou gosto de tamareira. A chuva caiu mansa misturada em tempestade de areia. Ela pode ser selvagem esta noite o quanto quiser. Ele pode se sentir como gaivota em revoada e alvoroço até onde merecer. Acordarão amanhã bem tarde, pensarão nos rumos da vida e, bem mascarados, farão planos secretos. Daqui em diante, a bússola ficará inerte.

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