Na minha frente tenho um relógio enorme. Nas minhas costas roça uma lembrança imensa. Sentada espero o dia amanhecer. Ouvindo um vinil de décadas amassadas e fumando cigarro de quinta comprado na esquina. Passar horas lambendo a beirada da xícara de um chá amargo, daqueles que traz a realidade de volta. Sou fruto de esquizofrenias múltiplas. Sou fruta caída e esquecida. Caqui mole e rabugento. Até minhas doces pestes pularam para cima do vinil e dão voltas compassadas, fazendo caretas, esperando minha reprimenda. Bom esperar o dia amanhecer. Saber que quem assistiu às nossas vergonhas agora dorme, sem ação, sem lembranças, sem planejar de cordas no meu pescoço. Posso presenciar a vida em paz com meus defuntos interiores. Já fui coroada com flores nesta ciranda onde ninguém me deu suas mãos suadas e nojentas.
Aqui trago a fumaça sem pressa. Imagino amores não vividos, com a permissão do bondoso destino. Aquele menino que sentava no banco encardido ao meu lado na sala de aula era o mais lindo de todos com o seu moreno de praia e sabedoria de nadar em piscinas olímpicas. Crianças nunca distinguem verdades de lorotas. São ratazanas eternamente perdidas em becos escolares imundos. Prefiro estar sentada em carpete encardido, vendo o vinil com suas músicas pateticamente divididas. Ouço tudo. Inclusive o silêncio mórbido da madrugada com seu ranger de dentes ameaçador. Aqui estou protegida. A madrugada será minha mãe até aquela maldita bola dourada sair por detrás das montanhas.
Freio a montanha russa no momento crucial da descida. Quero tempo parado e pensar nos cabelos claros de quem nunca me beijou. Lembrança enorme é uma perigosa água fervente espinhosa. Ninguém baterá na porta, mas sempre espero o girar fantasmagórico da maçaneta.
O bom mesmo é esperar o dia amanhecer e acreditar que o vinil é eterno. Que o desinfetar vem com o raiar do dia. Enquanto isso não chega, observo o brinde egoísta de todas as estrelas no céu. Nas minhas veias correm o chá amargo do esquecimento e o doce veneno da lembrança. Assim, em clichê azedo para ser entendido enquanto chego ao filtro amarelo da minha nicotina. O que eu quero mesmo é um batom vermelho bem forte. Chegar ao espelho e ver uma diva caótica. O que quero mesmo é a decadência desde já em chamas. Eu sei que amanhã será o dia do não vertiginoso. É assim sempre em lua nova, quando os vampiros voltam a habitar seus caixões. Se é para sofrer, quero gozar logo deste sofrer. Quero goela abaixo todo o maldito chá amargoso. Soltar o freio da montanha russa.
Sentada de novo no carpete encardido, vejo na minha frente o relógio enorme de ponteiros incorruptíveis. A madrugada sempre oferece ar puro de tempo parado. O lado B do vinil pela décima quarta vez. Mas agora, minhas doces pestes têm horas contadas na mira de meu revólver.
Aqui trago a fumaça sem pressa. Imagino amores não vividos, com a permissão do bondoso destino. Aquele menino que sentava no banco encardido ao meu lado na sala de aula era o mais lindo de todos com o seu moreno de praia e sabedoria de nadar em piscinas olímpicas. Crianças nunca distinguem verdades de lorotas. São ratazanas eternamente perdidas em becos escolares imundos. Prefiro estar sentada em carpete encardido, vendo o vinil com suas músicas pateticamente divididas. Ouço tudo. Inclusive o silêncio mórbido da madrugada com seu ranger de dentes ameaçador. Aqui estou protegida. A madrugada será minha mãe até aquela maldita bola dourada sair por detrás das montanhas.
Freio a montanha russa no momento crucial da descida. Quero tempo parado e pensar nos cabelos claros de quem nunca me beijou. Lembrança enorme é uma perigosa água fervente espinhosa. Ninguém baterá na porta, mas sempre espero o girar fantasmagórico da maçaneta.
O bom mesmo é esperar o dia amanhecer e acreditar que o vinil é eterno. Que o desinfetar vem com o raiar do dia. Enquanto isso não chega, observo o brinde egoísta de todas as estrelas no céu. Nas minhas veias correm o chá amargo do esquecimento e o doce veneno da lembrança. Assim, em clichê azedo para ser entendido enquanto chego ao filtro amarelo da minha nicotina. O que eu quero mesmo é um batom vermelho bem forte. Chegar ao espelho e ver uma diva caótica. O que quero mesmo é a decadência desde já em chamas. Eu sei que amanhã será o dia do não vertiginoso. É assim sempre em lua nova, quando os vampiros voltam a habitar seus caixões. Se é para sofrer, quero gozar logo deste sofrer. Quero goela abaixo todo o maldito chá amargoso. Soltar o freio da montanha russa.
Sentada de novo no carpete encardido, vejo na minha frente o relógio enorme de ponteiros incorruptíveis. A madrugada sempre oferece ar puro de tempo parado. O lado B do vinil pela décima quarta vez. Mas agora, minhas doces pestes têm horas contadas na mira de meu revólver.
Nostalgia. Eis um sentimento ímpar... Que separa as pessoas 'normais' das pessoas 'especiais'. Gostei.
ResponderExcluirLembrar é possível, mas se voltasse...
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