Pular para o conteúdo principal

O futuro dele

Ele viu seu futuro nos olhos do gato sentado na janela. Aquele momento que se repete na mente sempre quando chega a tarde com seu ar gelado de pólo norte na esquina. Ainda tem na memória cheiros, gostos e gestos de muitos outonos distantes. Foi tudo muito rápido. Arrumou a mala com meia dúzia de panos sujos e saiu sem olhar pra trás. Imaginou que antes de sair havia matado todo mundo com aquele facão enorme de podar ameixeira em outubro. Ou em abril?
De resto, nada mudou muito depois de decisão tão apertada. Antes tivesse ficado onde estava. Mas as ameixas não eram bolas de cristal. Tanta coisa já havia feito. Motorista de caminhão, entregador de pizza, vendedor de armazém, faxineiro de empresa gigante. Os trocados foram todos ao vento. O tal do uísque nem chegou a provar. As mulheres altas fugiam todas. Os carros passavam acelerados demais. Tudo era sempre muito rápido para desaguar depois em mesmice insana. Porque os mesmos jogos se repetem em diferentes mesas. As mesmas cartadas acontecem nos mesmos minutos dos mesmos relógios do mundo inteiro. Só muda o hálito das baforadas dos cigarristas.
Tremendo nó ao voltar para aquela casa que ainda guarda o verde encardido da fachada. Deu tudo errado até ali. Ou tudo certo aos olhos do viajante que não se cansa em afirmar que o império de cartas é sólido. Até a baforada do próximo cigarrista. Ele não esperou. Arrumou a mala com meia dúzia de panos sujos e voltou. Suas baforadas agora são frias como a do pólo norte da esquina. Todos ainda estão lá. Ninguém morreu no fio certo do facão, aquele da ameixeira. O azedo da lembrança da fruta miúda embrulha o estômago. Voltar não pode. Ficar talvez.
O gato na janela percebe sua presença. Não faz estardalhaço. O futuro dele está no estreito risco no meio da bolota ocular esverdeada do felino. Não sabe mais rostos, nomes, idades, desejos, frases de educação. Esqueceu como alcançar a maçaneta, como dizer bom dia, como sair para trabalhar tendo a responsabilidade na volta pra casa. Esqueceu o nome do santo que ficava na sala. Estão todos ali. Ali dentro. A metros dali. Depois do gato na janela. Depois do soar da campainha. Depois do abrir da porta. Difícil nó na goela. Pernas tremem ao frio do pólo norte da esquina. Ou pólo sul? Outubro ou abril?
De resto, nada mudou. Por via das dúvidas, em suas andanças, encontrou um facão à venda, igualzinho como aquele da ameixeira. Ele está ali, bem guardadinho em meio a meia dúzia de seus panos sujos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.