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Pimenta, dominó e açucareiro

Tudo bem, não vou dizer a ninguém o que aconteceu. Talvez por medo, mas sobretudo porque me pediram. Não podemos sair por aí espalhando aquilo que não nos pertence. Mas bem que poderia pertencer. Porque então a chave da gaiola seria minha e o pássaro preto estaria liberto para fazer ninho na montanha encantada onde moram falcões belos e vistosos. Para ser forte é preciso estar perto de pessoas fortes. Saber escutar. Saber agir.
Foi em fim de tarde começando a chover aquela chuvinha melada que saiu do açucareiro. O céu morno estava de mau humor e os fatos não foram pra frente como fila de banco em dias estéreis. Umas palavras apenas ditas na hora errada e o castelo todo se desmoronou. Sobrou ela, coitada, aflita, perdida, de saia justa e maquiagem borrada. Medonha solitária. O céu morno não teve pena. Ficou de estátua achando que a vida lhe daria novas colheres de chá. Coitada mesmo. Não posso revelar as palavras ditas. Seria romper o trato. Me deixem em paz com meu dominó. Quero paz em fim de tarde para poder fumar cada uma de minhas lembranças. Ninguém deseja dias normais. Eu sim.
Depois ele virou as costas e deixou ela sozinha com o nó para desatar. Me deu vontade de estar por perto e ajudar. Mas só entendo de dominós neste momento, e guardar segredos talvez, e chorar pelos outros raramente, e mentir quando coça o dorso da língua. Também sei fazer doces, mas essa é outra história. Ela com aquela cara amarelada, aquele sorriso apagado. Ficou assim por muitos dias, quem sabe semanas. Noites sem dormir imaginando o que se passou na mente dele. Palavras na hora errada. Elas são um perigo. Quase sempre sinto que as minhas boas palavras, aquelas boas mesmo, caíram todas dentro de um poço fundo e seco. Ironia. Sou fã dela. É a pimenta da vida. Sobre o açucareiro eu já falei.
Depois ela ainda tentou percorrer os mesmos lugares por onde ele tinha o hábito de passar. Ah, esses apaixonados repetitivos. Já não bastava o sorriso pálido ridículo nos dentes? Ah, os apaixonados sempre querendo tirar a pedra de número seis, a quantia máxima do jogo. A sorte é uma dama má. Ela é muitas coisas, menos pimenta e açúcar. Talvez é a soda cáustica letal. Você aceita jogar dominó comigo? Sim, repetitiva, mas vivida, sóbria demais, linguaruda na medida certa.
Daí, a história é o reque-repete habitual. Existe reque-repete? Enfim. Não posso dizer quais foram as palavras ditas na hora errada. Precipitou o açucareiro, pobrezinha. A idade ornada de sabedoria ainda não bateu à porta. Ela bem que insistiu rodeando o pobre. Ela veio me contar segurando o choro. Como se eu ainda não a tivesse visto chorar. As pedras da vida são assim, às vezes sai a pedra que é zero e zero, em outras sai a seis e seis. E daí? Você pode precisar da dois e cinco. Nada determina coisa alguma. Ironia. Ela é a pimenta da vida. Um dia vocês ainda saberão admirá-la. Enquanto isso se cocem querendo o eterno doce de leite, fácil e tenro.
Agora estou fugindo um pouco dela. Está ficando cansativo. A história não vira a página. Ele não está nem aí. A sopa já está cheirando e eu tenho que guardar as pedras. De tudo isso talvez ela aprenda a não repetir a burrice. Dizem que o erro é aceitável uma vez e que na segunda vez isso já é uma escolha. Meu silêncio agora é o melhor. A história está dita. As palavras são segredo. São fonte de mal entendidos. Pois fiquemos assim. Quando pensarem em dizer "eu te amo", assim, com muita veemência, tenham cuidado.

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