Pular para o conteúdo principal

Rainha de paus

Aquelas sementes jogadas no chão não eram bom sinal. Eram grandes, de cor marrom, horríveis. Esmagadas algumas, inteiras outras. Até a água que caía do seu copo podia revelar sinais terríveis para o dia seguinte. E a cartomante maldita que depositou ainda mais medo na situação. Desvirou o enforcado, o quatro de copas e a torre. Indicações de laços rompidos, más notícias, notícias pela metade, metades sem notícias. Para que foi naquele inferno antes mesmo do dia amanhecer saber do futuro através daquelas lâminas malditas?
O calor refletia na testa gotas monstruosas. A melancia chorava lágrimas negras sobre a mesa e o dia começava a escurecer com a força de uma descarga desregulada. Ainda sobre a cama a pilha de quinquilharias ditas úteis para a fuga. O santo na parede com o olhar severo, desaprovando tudo e enviando sinais temerosos, de parar o relógio e a respiração. Ouve passos de ratos nos tímpanos.
E ela desvirou ainda com aqueles dedos magros cheios de anéis azinhavrados e pedras fracas as lâminas do diabo, do cinco de ouros e do louco. Os parcos recursos se findariam em breve. Moedas finas se perderiam logo. Uma ossada a ser espatifada por pé de elefante. Dali em diante, as notícias se amarelariam e mostrariam suas garras nefastas. As sementes encontradas ao azar na soleira da porta traziam os frutos do esquecimento do destino.
Fazer ou não as malas? Fugir ou ficar ali mesmo, dormindo sob o olhar do santo em fúria? Varrer as sementes ou acreditar que o diabo não é tão mal, o louco nem tão insano e o enforcado nem tão culpado assim? Tapando o sol, a lua e o gordo Júpiter com a peneira. Tempos de solidão, dúvida e apego. Cartas malditas. Se lembra também do cavaleiro de copas, do rei de espadas e do mago. Surpresa a caminho. Olhos dengosos cruzariam o seu caminho, com perfumes de ervas e palavras de mel. O fim, de certo.
Quinquilharias, sementes, lâminas, santo. Deus! Nada de muito fortuito sob sua cabeleira loira. Hora de entregar-se à decisão.
Nos próximos dias, tudo ficou no seu lugar. Quebrou a vassoura ao meio. Jogou um lençol sobre o santo. Espaventou a nuvem pesada sobre a cabeça e jogou a peneira na chuva. Ela agora quer sol, muito sol. Tostando a cabeleira. A rainha de paus não tardaria a chegar. Era preciso estar em guarda. Cobranças certas, amores perdidos, cabeleira ao solo. Quem precisa de cartomante quando o futuro é água clara em dias de verão?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.