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Tardes de maio

Nevou. E não foi fácil. Aquele ar gélido se tornou insuportável. Era preciso saber lidar com palavras e ir a fundo no lago quando era necessário. Agora seguir rumo ao abismo seria a opção certa. Escafandrista de uma noite só. Chega. Decifrar é para quem tem tempo. Caminhar por florestas esverdeadas é para os puros de corações sonhadores. A lava do vulcão se aproxima e é hora pular a cerca mais próxima.
Naquelas tardes de maio, com aqueles ventos suaves e suas flores tímidas, tudo se encaixou de uma tal forma que parecia para sempre nossos hálitos misturados. Pareciam eternos nossos hábitos compassados. Amizade singular. Como era bom tocar seus cabelos sem compromisso. Tudo era tão vago, tão provável, tão submerso, tão com cheiro de futuro limpo. Era bom. Era certo.
Rumos mudados pelo sol do dia seguinte. Aquela dose que te foi oferecida não deu certo. Querido diário, eu me desfiz naquele dia. Com medo de suas palavras. Com receio do vulcão adormecido. Eu sabia que ele não iria durar ali muito tempo com aquela altura imensa e o calor reprimido. Um dia a mão nos cabelos não foi aceita. Os hálitos não se misturaram. O hábito ficou escondido atrás da cortina.
Coloquei o calendário com os meses virados para o tampo da mesa. E quebrei os ponteiros do relógio. Me desfiz antes que você me desfizesse. A antecipação me salvou do afogamento. Eu quero ir embora, mas ficou aquele pedaço de despedida para trás. Aquele com lágrimas ralas nos olhos e sorriso desmanchado de tristeza. Palavras ditas com paz de lago ou tempestade de vulcão. Ficou um buraco. Faltou o que martelar na minha cabeça pelos próximos dias. Faltou, querido diário. Faltou o que dizer. Te tenho nas mãos. E a gasolina está à espera. Me despeço de mim no espelho.
Neva agora e não está sendo fácil. O ar está insuportável. Quero rasgar maio com fúria vulcânica.

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