Pular para o conteúdo principal

O delírio comum das botas roxas

Cinco da tarde não pousava naquele relógio imenso e imundo há muitos dias. Quando o tempo e as amoreiras não estão a nosso favor, tudo apodrece em data esquecida. Muito frio na espera. Nada ao redor de casas minúsculas e redes penduradas. Tudo era muito amarelo e com escadas na terra distante que chamaram de impaciência. Lália está impaciente com suas saias curtas e pretensões enormes. Bebendo água infectada de chafariz e arrastando suas botas roxas com meias grossas roxas de um tom abaixo. Não acreditava mais no relógio da igreja cheio de restos de pombos e de migalhas de miradas humanas.
Todos os dias iguais e todas as portas fechadas para o mundo solteiro de Lália que perdeu o caminho da passarela que cruzava a avenida fumegante interminável e que terminava no seu coração empoeirado. Botas roxas não podem andar muito quando trazem na sola lembranças cardiovasculares terríveis. A água de chafariz servida em taça rosa naquele fim de tarde tão aconchegante perto da lareira que estalava fagulhas perigosas. Pegou fogo muitos dias e muitas madrugadas para desembocar no calçar das mesmas botas roxas fora da estação primaveril que Lália já havia se esquecido há muito.
Há muito Lália é inverno decepcionante de folhas decadentes. A amoreira virou as costas para a doce menina que sonhava em ser bailarina e que fazia café forte como ninguém. Dançou muitas valsas em muitos verões quentes de chafarizes límpidos. Agora o vento do leste chegou com suas pestes inconfundíveis. Lália repassa todas as noites ao relento a sua decadência poética. Sofreu com uma história tão comum como acontece com qualquer um. Qualquer um servia depois para afogar as memórias que restavam e incomodavam como cravo nos dentes. Sorte, sorte, sorte. Pedia toda noite sorte para continuar seus rumos e sorte para a sola da bota roxa durar um pouco mais. O inverno interior de mesmices castiga. E as cinco horas que não chegam com o grande relógio e sua moldura de pombas sujas catedráticas.
Sonha com anjos e suas trombetas brancas polidas, de cabeleiras arrumadas e hálito de jardim. Sente já o cheiro das horas mornas, sem botas roxas e olhares depressivos, descalça nos pés e nas mãos, e na mente e nos planos, pronta para mergulhar nos afazeres que fazem sentir um ser humano vivo e vivível.
Sonha, Lália. Ela sonha todas as noites, e o gatilho que dispara terá o som mais doce das horas mais bem vividas por ela, bailando sobre a ponta do chafariz e reluzindo como trombeta branca de quem conhece o mundo como a palma da mão lida pela romena que morreu semana passada ao beber água suja. Chafarizes envenenados. Vidas plantadas em locais errôneos com suas dores de amor. Amor de amora. Escuro, mole, perecível. Nada romântico e vermelho. Sujo, feito a água urinada do anjinho maldito do chafariz da mesmice da praça.
Hoje é dia de festa e as luzes se acendem para novas auroras boreais. Botas roxas a postos. O dia inteiro a postos. Coração de Lália pulsando na poeira. Tudo certo, menos com aquele relógio roxo imenso que não toca o blém-blém esperado das cinco. As pombas devem ter comido o mecanismo do funcionamento. Lália é a meia-noite repetida de cinco em cinco horas. Como remédio roxo feito de botas de amoreira.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...