Quando ele me contou a história, o analgésico no armário do banheiro já havia sido engolido. Tratei de colocar o casaco e percorrer as ruas estreitas que me levavam à casa pequena de Amélia, a sofredora e rezadora incontestável de bolotas de terço. Ela sabia da missa as duas metades. Dentre algumas horas o analgésico perderia o efeito e estaria minha tumba pronta a oferecer memórias e diálogos nada reconfortantes. Odeio ter minhas horas interrompidas por rajadas de maus ventos explicados. Explosões de naftalina. Amélia que não abre a porta e aquele homem da quitanda da frente que não deixa de me olhar. Conhecido daquele porco contador de mentiras.
Batidas na porta. A voz sufocada de Amélia pede para aguardar. Quando abre, a naftalina já escorre pela minha traqueia e faz pouso no meu cerebelo por quarenta dias. Oferece café ralo e não pede licença ao acender o cigarro amassado saído de dentro da gaveta. Recuso o café que de repente aparece na sala contra a minha vontade. Naftalina e fumaça de cigarro juntas no meu cerebelo por setenta dias. Sem rodeios, mas tomando o café aos poucos para ganhar tempo, pergunto sobre ele. A casa de Amélia fica amarela como as paredes do banheiro da casa dela. Sorriso de dentes tortos e pretos de fumo. O olhar tenta escapar pela janela, mas eu sei que Amélia sabe. Sei que vai se levantar e tentar abrigo temporário na privada para ganhar tempo. Eu sei. Ela também. Mas não tirou o traseiro do sofá para ganhar tempo entre paredes amarelas, e sim para me mostrar uma caixa pequena que traz dentro uma bailarina de marfim que dança um som de ópera ultrapassada. Só a bailarina, sem joias ao redor. Amélia diz que ao escutar a música rodada pela bailarina ele iria me contar o resto da história. Ir embora, porque Amélia era enigmática e eu não queria acompanhar suas rezas de terço quando o cuco batesse as seis horas inegáveis.
Hora de percorrer as mesmas ruas estreitas e voltar para minha casa que não guarda naftalina ou paredes amareladas. Consigo ainda dobrar os joelhos para limpar minhas próprias privadas. O armário do banheiro sem analgésico para curar o mal que a naftalina me fez. Espero que a caixa de música irritante traga o meu alento necessário.
Passaram-se os dias e as noites. Quarenta luas nascidas para ser exata. A naftalina com cigarro desgrudou do meu cerebelo. Ele bateu na minha porta mais uma vez. Bem tarde. Dessa vez não houve histórias, nem analgésicos. Ao ver a bailarina, ele sorriu amarelo e despreparado. Sorriu o sorriso de Amélia. Dizem que quando duas pessoas vivem juntas por muitos anos elas passam a ser mesma coisa. Passam a ser uma pessoa só, com os mesmos trejeitos, sorrisos, gestos e fios de cabelo branco. A casa amarelou inteira. Roubei o que era de Amélia. Não era Amélia quem roubava de mim. Vergonha de interferir na vida alheia de paredes encardidas. Hora de regressar por ruas estreitas. Sozinha.
Não quero que as seis horas do cuco cheguem. Não quero minha casa com paredes amareladas. Não quero bailarinas, mesmo achando que o rosa das sapatilhas que elas usam é da cor da minha echarpe favorita. Naftalinas me lembrarão para sempre dos meus dias desassossegados.
Batidas na porta. A voz sufocada de Amélia pede para aguardar. Quando abre, a naftalina já escorre pela minha traqueia e faz pouso no meu cerebelo por quarenta dias. Oferece café ralo e não pede licença ao acender o cigarro amassado saído de dentro da gaveta. Recuso o café que de repente aparece na sala contra a minha vontade. Naftalina e fumaça de cigarro juntas no meu cerebelo por setenta dias. Sem rodeios, mas tomando o café aos poucos para ganhar tempo, pergunto sobre ele. A casa de Amélia fica amarela como as paredes do banheiro da casa dela. Sorriso de dentes tortos e pretos de fumo. O olhar tenta escapar pela janela, mas eu sei que Amélia sabe. Sei que vai se levantar e tentar abrigo temporário na privada para ganhar tempo. Eu sei. Ela também. Mas não tirou o traseiro do sofá para ganhar tempo entre paredes amarelas, e sim para me mostrar uma caixa pequena que traz dentro uma bailarina de marfim que dança um som de ópera ultrapassada. Só a bailarina, sem joias ao redor. Amélia diz que ao escutar a música rodada pela bailarina ele iria me contar o resto da história. Ir embora, porque Amélia era enigmática e eu não queria acompanhar suas rezas de terço quando o cuco batesse as seis horas inegáveis.
Hora de percorrer as mesmas ruas estreitas e voltar para minha casa que não guarda naftalina ou paredes amareladas. Consigo ainda dobrar os joelhos para limpar minhas próprias privadas. O armário do banheiro sem analgésico para curar o mal que a naftalina me fez. Espero que a caixa de música irritante traga o meu alento necessário.
Passaram-se os dias e as noites. Quarenta luas nascidas para ser exata. A naftalina com cigarro desgrudou do meu cerebelo. Ele bateu na minha porta mais uma vez. Bem tarde. Dessa vez não houve histórias, nem analgésicos. Ao ver a bailarina, ele sorriu amarelo e despreparado. Sorriu o sorriso de Amélia. Dizem que quando duas pessoas vivem juntas por muitos anos elas passam a ser mesma coisa. Passam a ser uma pessoa só, com os mesmos trejeitos, sorrisos, gestos e fios de cabelo branco. A casa amarelou inteira. Roubei o que era de Amélia. Não era Amélia quem roubava de mim. Vergonha de interferir na vida alheia de paredes encardidas. Hora de regressar por ruas estreitas. Sozinha.
Não quero que as seis horas do cuco cheguem. Não quero minha casa com paredes amareladas. Não quero bailarinas, mesmo achando que o rosa das sapatilhas que elas usam é da cor da minha echarpe favorita. Naftalinas me lembrarão para sempre dos meus dias desassossegados.
Uau que belo texto... Tú escreves muito bem... Sou etudante de jornalismo e adoro ficar por ai lendo bons textos, adorei encontrar seu espaço aqui. PARABÉNS. SEGUINDO
ResponderExcluirwww.narellybatista.com