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Domiciano avisou

Vai chover. O céu inteiro vai chover e as gaivotas cairão encharcadas sobre o solo. Uma a uma. Pendências celestes terão suas contas acertadas. De nada vale todos os vales que ainda cercam a estrada se a chuva falta e o verde esmorece sem pedir perdão.
Amanhecendo logo depois. Domiciano nunca perde as estribeiras e nem as horas. Com o chão encharcado da tempestade anterior, ele sabe que os muros agora são obstáculos pequenos. Se lembra ainda do lugar onde ela mora. A casa cercada de framboesas azedas e desperdiçadas. Quando acabavam as tempestades, lá naqueles tempos idos e íntimos, o arco-íris era bem visível da janela dela. Dava para apontar todas as cores com o dedo. O arco-íris era enorme e inconfundível. Pegando a estrada e saltando as pedras. Domiciano ainda leva dentro de si aquela mágoa pequena, incomodativa, do dia do adeus mal resolvido. Pra não percorrer nunca mais a estrada de terra e os vales profundos cheios de pássaros acasaladores.
A estrada avança e o cérebro fica lento, lento. Cheio de cheiro de mato e framboesa acordada. As horas estão ao lado do devagar Domiciano. Memórias calçadas nos pés que seguem a estrada fácil e iluminada pelos poéticos vaga-lumes. Mas ainda é dia. E Domiciano se recorda dela debruçada no portão, com lenço verde no pescoço e os cabelos castanhos desarrumados nos ventos. Framboesas.
A estrada está próxima do fim. No fim está a casa. A casa deve estar lá. Estará lá. A estrada é curta, mas a decisão foi longa, como tranças de donzelas. Decisão difícil, entornada aos poucos em cada minuto de muitas décadas.
As framboesas congelaram no coração de Domiciano. Informações e informações. Ela se foi. As décadas foram muitas, mas a framboesa congelou. A estrada foi curta e o arco-íris se misturou, cuspindo branco. Ele até poderia encerrar perguntando para que lugar ela foi. Mas enfrentar nova estrada, novos vales, novos arco-íris, novas framboesas, novas horas e tantos e tantos novos rumos não está no coração de Domiciano. O verde esmoreceu e não pediu perdão. Pobre velho de coração desatualizado.
Choverá da cor do lenço verde dela e ele tomará o café dos castanhos dos seus cabelos. Tudo será ela, que se espatifou no fim da estrada e entrou em cada greta restante da realidade que Domiciano tem agora. As horas serão fardos.
O tempo passou. Chuvas nas gaivotas e nos vales. Bem que Domiciano avisou.

Comentários

  1. Olá Munique, adorei o texto. De onde voce tirou o Domiciano? Qual foi sua inspiração?

    Att., Ana Maria Domiciano

    email: anamariadomiciano@hotmail.com

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  2. Enviei um e-mail a você!
    Obrigada pela visita :)

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