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Saídas

Onde está escrito 'saída'? Onde está escrito 'entrada'? O contrário de um é o outro. Ou não. Frio do lado de fora. Aperto no lado de dentro do peito. O frio chegou com força e gelou seus pés. Sem solução da fogueira, porque o fogo arde nas ventas.
Que terno ver vasos floridos no lugar das espingardas. Os tempos mudaram de nove anos para cá. Notícia boa pelo menos. Ela imaginou tantos diálogos. Engordou todos eles por meses a fio, fiando seu ponto-cruz de menina urbana desocupada. Imaginou cenas, como cidades construídas por bloquinhos de madeira. Pensou por vezes e mais vezes em desistir. Mas perderia a cena dos vasinhos lindos de flores lindas na parede. Todos ordenados, de uma só cor.
Pálida procura a entrada. Ou a saída. Tanto faz. Sente que o sangue já nem circula no corpo varrendo as veias. Na hora exata, os diálogos de tão gordos desaguaram em diarreia. Até chegou a pensar que isso poderia acontecer. Era muita emoção dentro da caixa torácica. Queria que tudo saísse perfeito, como o trenzinho de dentro do túnel, que ela avistava de longe em meio às samambaias e jiboias do terraço.
Dedo furado pela agulha e o coração rendado pedindo paz. Agora com tudo feito sentia uma agonia apertando a goela. Imaginar o que dali para frente? Construir o que dali para frente? Os pontos não casavam e a agulha se rendia à ferrugem.
Não soube engordar diálogos. Não soube controlar a locomotiva. Queria ter esvaziado o peito. Com assopro forte de derrubar casinha de madeira. Em vão. Respirou descontrolada. A presença dele era muito forte para seu peito fraco e sonhador. Queria dizer tantas coisas. Em ordem. Com pontuação e entonação corretas. Trenzinho perfeito da gramática. Diarreia frenética. Tudo acabado.
A língua travada só conseguiu pedir por um copo d'água. A fila das palavras pediu andamento. Ela freou e tudo descarrilou. Conto mal acabado. Onde está a saída? No mesmo lugar da entrada. A vida é um círculo imenso, ela conclui, debruçada na toalha que ela mesma bordou.

Comentários

  1. Gostei muito desse texto.
    E a vida é assim mesmo, uma confusão que a gente não sabe onde começa e onde termina, só sabe que vive. E enquanto vive. Enfim.
    Beijos

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