Pular para o conteúdo principal

Malária

Estou precisando de um detalhe
Para encerrar pequenas dores
Costuradas às minhas ideias torpes
Tantas névoas
Me afogaram
Quando precisava de um detalhe puro
Brilhante e inseguro
Esfregando as paredes cerebrais
Tentando lembrar de tantas
Histórias de casas abandonadas
Estou precisando de um detalhe
Pequeno, sórdido
Que venha azeitar as minhas engrenagens
Minhas rédeas partidas
Coloridas e insanas
Quando chegaram as horas
Tremi de medo e de febre terçã
As narinas pediam flores
Fortes da mais alta árvore
Maçã
Esse ainda não era o detalhe
Estou procurando um
Que me aloje fundo no peito alheio
Disfarce, plumas e um sol inteiro
Não quero exageros
Preciso de um detalhe
Pequeno
Mal curado
Minúsculo
Que me motive
Preciso de um detalhe
Antes que as formigas me consumam
Febre quartã
Demora, detalhe, delírio
Dor, demora
Febre
Preciso de um detalhe
Para me organizar e me deixar em paz
Enquanto ainda há vento e ar puro
Dentro do peito
E dos retalhos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sapatos molhados

  Tirou os sapatos molhados e os colocou debaixo cama. O calor dos pesadelos diários os secaria. Talvez um banho quente fizesse diferença. Mas ouvir os trovões que continuavam era um alento. Abafavam os gritos que vinham de dentro. Quando o trem passou cortando a tarde nublada, não imaginava que a tarde seria de tormentas. Molharia os pés ao atravessar a rua. E continuaria com eles molhados até dar o primeiro espirro. E junto com ele a lembrança. Ele a viu na janela em frente ao semáforo enquanto cruzava a via. O olhar dela se desfez para o lado, em fuga. Ainda pensou em esboçar um cumprimento, mas ela foi inteiramente fuga. Rebobinou todos os acontecimentos anteriores dos últimos anos. Conhecera-a na escola. Tinha cabelos longos castanhos e voz um pouco grave, que acrescentava razão a tudo o que dizia. Ele, calado, sempre concordava. Vivia dizendo a ela que um dia correria atrás de um trem para alcançar o último vagão e nele viajar. Ela sorria sem entender as loucuras dele. Eram b...

Mesmíssimo

  Ama-se o domingo de manhã O sol desbotado  O avental verde respingado  Um pouco queimado  Da rotina arrastada Ama-se o tempo repetitivo De cada mesmíssima coisa do primeiro dia Da semana  Domingo Ama-se  O cheiro do limão fresco A folhinha perdida no sábado O avental verde ainda queimado O tempo frio que pede o não fazer nada Ama-se.

Chegada de inverno

Lá estava o senhor, sentando na varanda da casa de repouso, em uma velha cadeira, preocupado com duas toalhas pequenas que secavam na grade que cercava o espaço. Em um banco, mais à esquerda, outro senhor encolhido escutava bolero, vindo de um mini system das antigas. Eles congelavam na sombra, enquanto eu, visitante rápida do espaço, esquentava meu moletom vermelho, sentada em um banco de concreto no pátio, debaixo de um magro sol de junho. O senhor, de olho nas toalhas, tinha o braço esquerdo esquecido, pendurado no corpo. Arrastava a perna esquerda também ao andar. Metade do corpo paralisada o fazia se mexer em passos minúsculos para conferir se as toalhinhas estavam secas. Ajeitou a calça de tactel verde e se sentou. Puxou o braço esquerdo, com a mão direita, para frente da barriga e verificou as horas, devolvendo o braço para a posição caída, como se fosse de cera. Segundos depois, também conferi o meu, mas sem movimentos lentos. Eram três e trinta e cinco da tarde, dentro de um ...