Correu muito até tomar impulso e pular o muro. Do outro lado, mostrava a língua de fora de tanto esforço e cansaço. Pés descalços. Alma leve como o branco das donas-de-casa. Havia muito tempo que queria ver o mundo lá fora e experimentar a vida e suas infinitudes. Alma leve como a vela dos barcos brancos ancorados e puros. Catamarã sem dono. Correr para não ser pega. Vai deixando para trás uma vida de tormentas para cair na teia límpida da imaginação. Deixa casas e muros para trás, enquanto a poeira sai apressada por debaixo da sola dos pés. Depois de muitas esquinas, a salvação. Sentia-se bem e livre. Começou a andar a passos normais. Ali ninguém a poderia reconhecer. Entrou no primeiro bar que avistou e pediu uma cachaça pequena. Gastou a única moeda que tinha. Achou que faltou mais uma para completar o valor. Mas o dono da pocilga, com sua pança imensa, deixou o drama pra depois. A pobre estava descalça, desgraçadamente descabelada e perdida. A cachaça a ajudaria a enfrentar o mundo. Esquentaria o peito magro cheio de imaginação pura. Tomou de um só gole a cana ardida e seguiu pela rua. Sem rumo. Catamarã com velas obedecendo ao vento. O vento era de Deus. Ar puro e certeiro. Pulava muros e trazia alegria.
Atravessou a avenida, desviando de caminhões imensos de cargas desequilibradas. Chegando ao outro lado, não reconheceu rosto algum. Ninguém que pudesse lembrar da última vez que saltou a muralha para navegar no mar azul. Pessoas estranhas, muito sujas e com frases desconexas. Não era isso que havia planejado enquanto enjaulada. Do último passeio dado há alguns anos até hoje, sentia que a gente estava mudada, com hábitos enlouquecidos. Apertou o passo. Acelerou até a poeira se misturar com ar e deixar aquela nuvem enorme suspensa. Correu muito até perder o fôlego. Começou a ver lojas. Muitos bares. E mais gente com cara de enjaulada, mesmo estando livre como o mar imenso.
Passou em frente a uma loja de bugigangas usadas. Livros com mofos. Brinquedos velhos. Sombrinhas antigas. Bem no fundo da loja, um espelho enorme. Andou passo por passo, como se pisasse em ovos de codorna, para que a vendedora, velha de óculos tortos e cachecol vermelho, não a apanhasse com o olhar. Estava descalça. Foragida de jaula. Aproximou-se do espelho imenso. Havia muitos anos que não via o próprio reflexo. Estava mudada. Mais morena. Com os cabelos curtos ensebados. Tinha mais rugas. O olhar estava pesado. Os lábios escuros. Não era ela. Não era possível. Não fazia nada enquanto estava por detrás dos muros imensos. Por que tanta mudança? O tempo era um mar azul imutável. Passava como o vento nas velas do catamarã. Sempre na ponta dos pés. Traiçoeiro. Correu rápido por ela, alcançou-a, ultrapassou-a. Ela perdeu. Uma lágrima quente correu o rosto sujo de poeira sem que ela esperasse. Levou um susto e quase caiu do catamarã. Saiu rápido da loja, sob os gritos da velha de cachecol que nem notou que a pobre não roubava nada.
Correu muito. Correu do tempo. Correu dela própria. Fez o caminho inverso, até perder o fôlego e recuperá-lo para perder tudo depois de novo. A jaula se aproximava. Precisava do ar viciado que havia depois da muralha. Queria como nunca abandonar o barco para sentir-se fechada para sempre. Sem se olhar. O oceano não era imenso. Não era azul. Antes de tomar o impulso para pular o muro de volta, deixou no chão o catamarã desarmado. Dentro dele havia um bilhete com anotações sobre tempo. Deixou a imaginação pura descansado. Tudo o que ela queria agora era descansar os pés empoeirados na cama dura do cárcere doce.
Atravessou a avenida, desviando de caminhões imensos de cargas desequilibradas. Chegando ao outro lado, não reconheceu rosto algum. Ninguém que pudesse lembrar da última vez que saltou a muralha para navegar no mar azul. Pessoas estranhas, muito sujas e com frases desconexas. Não era isso que havia planejado enquanto enjaulada. Do último passeio dado há alguns anos até hoje, sentia que a gente estava mudada, com hábitos enlouquecidos. Apertou o passo. Acelerou até a poeira se misturar com ar e deixar aquela nuvem enorme suspensa. Correu muito até perder o fôlego. Começou a ver lojas. Muitos bares. E mais gente com cara de enjaulada, mesmo estando livre como o mar imenso.
Passou em frente a uma loja de bugigangas usadas. Livros com mofos. Brinquedos velhos. Sombrinhas antigas. Bem no fundo da loja, um espelho enorme. Andou passo por passo, como se pisasse em ovos de codorna, para que a vendedora, velha de óculos tortos e cachecol vermelho, não a apanhasse com o olhar. Estava descalça. Foragida de jaula. Aproximou-se do espelho imenso. Havia muitos anos que não via o próprio reflexo. Estava mudada. Mais morena. Com os cabelos curtos ensebados. Tinha mais rugas. O olhar estava pesado. Os lábios escuros. Não era ela. Não era possível. Não fazia nada enquanto estava por detrás dos muros imensos. Por que tanta mudança? O tempo era um mar azul imutável. Passava como o vento nas velas do catamarã. Sempre na ponta dos pés. Traiçoeiro. Correu rápido por ela, alcançou-a, ultrapassou-a. Ela perdeu. Uma lágrima quente correu o rosto sujo de poeira sem que ela esperasse. Levou um susto e quase caiu do catamarã. Saiu rápido da loja, sob os gritos da velha de cachecol que nem notou que a pobre não roubava nada.
Correu muito. Correu do tempo. Correu dela própria. Fez o caminho inverso, até perder o fôlego e recuperá-lo para perder tudo depois de novo. A jaula se aproximava. Precisava do ar viciado que havia depois da muralha. Queria como nunca abandonar o barco para sentir-se fechada para sempre. Sem se olhar. O oceano não era imenso. Não era azul. Antes de tomar o impulso para pular o muro de volta, deixou no chão o catamarã desarmado. Dentro dele havia um bilhete com anotações sobre tempo. Deixou a imaginação pura descansado. Tudo o que ela queria agora era descansar os pés empoeirados na cama dura do cárcere doce.
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