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A última batalha

N. Nei andava em círculos pelo enorme pátio e não sabia mais se tinha feito a coisa certa. Foram muitas batalhas e escândalos até ali. Muitos obstáculos que ela não enfrentou. Simplesmente os desviou. Agora eles eram fantasmas enormes cheirando a mofo correndo atrás  dela com seus ecos assustadores. Conhecia muito bem todo o casarão. Todos os quartos. Todos os armários. O único lugar que lhe dava conforto era o enorme pátio redondo no centro da construção antiga, com um chafariz imenso de águas verdes. Arrastava-se como um réptil sedento ao redor da água barulhenta, que subia alto e despencava no pequeno mar cercado de concreto. N. Nei sabia, acima de tudo, que a próxima batalha seria sangrenta e talvez a última para ela. Impossível sobreviver. Os inimigos eram incontáveis e as armas eram desconhecidas. Seu arsenal minguava. Cada lua não trazia a resposta desejada.
No pátio havia seis portais imensos. Cada um desembocava em um lugar distinto do casarão. N. Nei tinha conhecimento profundo do mapa. Podia andar de olhos fechados por ele, percorrendo corredores, escadas,     salas, antessalas, túneis secretos, portas mágicas. Mas nunca havia passado por um desses portais - o mais baixo, decorado de azulejos esverdeados. Na entrada, muitos vasos de cerâmica com plantas medicinais. Jamais teve curiosidade de entrar e descobrir aqueles segredos. Odiava tomar chá e passar por portas estreitas. Adormeceu já cansada das últimas lutas em um dos bancos de madeira do pátio. Teve sonhos perturbadores. Grandes libélulas a levavam para o topo do chafariz e a largavam do alto para cair no pequeno poço de água verde. Cada vez que N. Nei caía, um membro se partia. Depois de cinco quedas, a dor arrebentava seu corpo de maneira insuportável. Acordou com o braço direito dormente e uma dor de cabeça desesperadora. Olhou ainda mais uma vez para o pequeno portal arrebatado de plantas. Entrou no casarão.
Depois de escadas e corredores de pedra, trancou-se no quarto. O silêncio era de pedra. Há muitos anos não via uma libélula e não entendeu como seu sonho foi buscá-la. A mente era sempre um labirinto viscoso de paredes mortas. Dentro ou fora, o vazio tomava conta dos dias. A grande batalha se aproximava. Havia vencido todos. Todos se curvaram diante de seu manto verde. Há algumas semanas, N. Nei retirou da grande casa todos os calendários e relógios. Depositou todos no grande porão de grandes cadeados. Acreditava vencer o tempo. Agora só observaria o vai-e-vem do sol e da lua. Faria também grandes rituais em dia de eclipse, para atrair a sorte. Isolava-se cada vez mais do que era humano. Queria sentir na pele, até os ossos, como era a solidão e a vitória. O casarão estava longe de qualquer estrada mais próxima. As grandes árvores o engoliam cada dia um pouco. Só o chafariz se renovava dentro dele próprio. O perpétuo atraía o coração de N. Nei.
O sol se foi e a noite bateu à porta com hálito gelado. N. Nei dormiu cedo e dormiu pouco. O último portal a atormentava. Para apaziguar a mente e o corpo pensava no tempo trancado no porão. E também no chafariz de líquido inesgotável. Passou a manhã nublada meditando sobre os feitos dos dias anteriores, e nos obstáculos que não enfrentou. Fantasmas não aceitam cadeados. N. Nei se sentia cada vez mais fraca. Passava o dia comendo maçãs e pequenos pães adormecidos. Cada dia que passava marcava em sua pele um tom mais pálido. Os eclipses não vieram. Depois de vários e vários dias de pesadelos, dores terríveis e olheiras marcadas, ela jogou o manto verde nas costas e se direcionou ao pátio. A tempestade caía com força e abafava o chafariz. As águas se misturavam. N. Nei passou pela fonte sem olhá-la. O portal pequeno se aproximava. As plantas medicinais exalavam cheiros estranhos. Era hora de por fim aos sonhos de mau agouro. Arrancou a chave do gancho ao lado da porta e a depositou na fechadura sem meditar. Aquele portal era diferente por ter apenas uma entrada. Sem labirintos de corredores, escadas, quartos e salas. Empurrou a madeira pesada e um hálito de antiguidade lhe assaltou as narinas. Era um cômodo pequeno, sem mistérios. Ao fundo um espelho enorme cobria toda a parede. Um espelho imenso, sem mácula. N. Nei deixou o manto verde cair ao chão. Estremeceu com a trovoada lá fora. Sentiu os joelhos fraquejarem e as pálpebras queimarem. A última batalha estava diante de seus olhos.

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