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Violeta, Julieta e Antonieta

Violeta ajeita os grampos nos cabelos com as janelas ainda fechadas. Era maio e os ventos poderiam ainda trazer algum resfriado. Era muito cedo. Violeta tinha muitas rugas ao redor dos olhos. Ela aparentava mais idade do que tinha. Mas também não era jovem. Muita história havia corrido em suas veias desde que nasceu. Era rígida. Não se casou. Com o tempo, ficou cada vez mais seca, amarga e limpa, feito chá ruim revigorante. Sempre calculada. Violeta desce as escadas e encontra as irmãs mais novas. Não nasceu bonita. Nasceu exigente e de olhos arregalados. Tinha a pele estranhamente acinzentada, como se a morte já a tivesse espreitado e engolido. Não tinha paciência com as irmãs. Elas eram três e nenhuma se casou. Moravam todas juntas, como um enorme saco de damascos secos e amassados pela viagem. Azedos e incorruptíveis.
Julieta tinha os quadris largos e não suportava Violeta, a flor roxa do mau presságio. Era como uma mãe má, egoísta e sugadora de sorrisos. Quando Violeta passou dois anos nos Países Baixos, Julieta era fogos de artifício. Abriu, à época, todas as janelas, e colocava os seios fartos para admirar a rua. Julieta era corpulenta e adepta das manobras infernais. Abriu janelas. Abriu a porta de seu quarto, escondida de Antonieta que não poderia saber de suas manobras. Antonieta escutava sons estranhos ao cair da tarde. Mas a inocência atropelava a compreensão. Violeta com cara de chuva que não passava. Julieta torcia para que ela se demorasse muito nos Países Baixos, que seu  retorno chegasse após muitos meses.
Antonieta também não gostava de Violeta. As tarefas mais árduas sempre eram repassadas a ela, como estender no varal lençóis gigantescos. Enquanto isso Julieta lixava as unhas e mantinha o batom impecável. Quando voltou dos Países Baixos, Violeta não trouxe nenhum presente ou cartão postal. Lisa, fria, damasco podre. As pobres irmãs não poderiam esperar por muito aconchego ou histórias de viagem. Daqui a pouco, as ordens, como vindas de um grande general, começariam a reverberar pela casa. Antonieta era sempre a mais exigida. Era diferente das outras com orelhas pontudas e dentes pequenos. As bochechas eram vermelhas, parecendo estar em calor constante. Violeta nunca se aproximou dela com ternura. Violeta não era terna com ninguém. Julieta não se importava com ela, mas era todo cuidado com Antonieta. Sim, eram irmãs. Deveriam viver unidas e morrer todas no mesmo casarão dali a alguns anos. Violeta era preocupada com a moral e os costumes engessados. Elas deveriam aparentar união e felicidade aos olhos dos outros. Irmãs unidas por elos bem atados e construídos sobre bases muito sólidas.
Quando Julieta tinha quinze anos, Violeta fez uma longa viagem pelos Países Baixos. Ficou três anos fora. Queria passear, descansar o corpo e visitar antigos parentes. Quando voltou estava estranha. Muito magra e sem apetite. Talvez tivesse contraído alguma doença estrangeira. Ficou mal por muitos meses. Até que decidiu voltar aos Países Baixos, na esperança de se recuperar. Por lá ficou ainda muito tempo. Julieta cuidava sozinha de todo o casarão. Em um dia chuvoso de agosto, foi surpreendida com a chegada de Violeta com um bebê de cinco meses. Contou que era de uma prima que não poderia cuidar. Seria só por um tempo. Mas Antonieta nunca conheceria seu país de origem com moinhos engolidores de vento.
As irmãs tinham uma união de ferro apregoada por Violeta. O mesmo véu cobria as três. Um véu de ares incorruptíveis e sólidos. Damascos duros. As duas mais jovens não suportavam os ares superiores de Violeta. Era flor roxa misteriosa de más histórias, maus agouros. Às outras só repassava ordens, nunca afagos. Nenhuma deveria se casar. Deveriam manter-se puras e secas. Assim elas se tornavam admiráveis aos olhares de Deus e dos outros que as rodeavam.
Passaram-se alguns anos. Violeta foi pega pelo mau agouro. Ardia em febre sem fim por quase uma semana. Nada de médicos, ordenava. Nada de homens próximos a ela. Os delírios começaram e Violeta pensava na própria morte. Tinha sonhos terríveis com pás de moinhos gigantes que a atropelavam. Era carregada por ventos e trazida novamente para perto do moinho que a rodopiava violentamente com suas pás enormes. Começaram as visões com bebês. Antonieta pequenina com as bochechas cor de maçã. Pensava na partida. Pensava na orfandade de quem deixava ali, naquele casarão.Segredos pulavam no peito. Mas as confissões não saíam. Queria partir na terra dos Países Baixos de moinhos tranquilos. Vozes a chamavam. Duas vozes sempre a chamavam. Lembranças dos Países Baixos. Dores, muitas dores. Como aquelas que a perseguiram antes do choro estridente. Sua prima era testemunha. Deveria ter morrido primeiro. Julieta e Antonieta deveriam continuar castas. Unidas. Damascos gêmeos. Eram irmãs. Todas irmãs debaixo de um mesmo véu. Sim, irmãs. Violeta sabia. Sua prima era um arquivo com duas gavetas perigosíssimas. Julieta e Antonieta aguardavam pelo pior com os olhos secos. Violeta roxa deu origem a duas rosas enigmáticas.

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