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Cachoeira do mantra

Caminhos tortuosos em meio a quase escuridão. Depois de vários erros e acertos chegaram ao campo de apicultura. Não seria interessante passar a noite ali. Mas voltar seria um trabalho imenso. A noite apontou antes do esperado e eles foram pegos de surpresa. Deveriam ainda percorrer muitos quilômetros até desembocar na casa velha da cachoeira. O tempo foi mal calculado. A areia da ampulheta escorregou rala. Estavam agora entre zumbidos de abelhas, que não dormem, nem conversam.
Com as mochilas ainda intactas, pensam em acampar ou não. Tirando a clareira cheia de caixas de abelhas doces e furiosas, o resto era só estrada sem pouso, com mato empoeirado sem aconchego. Há uma hora atrás, eles haviam avistado uma pequena casa com chaminé ativa. Mas como estavam longe do destino, esticaram o passo. Agora o labirinto desembocava em uma clareira perigosa e desconfortável. Os ventos da noite de lua minguada sopravam baixo, com hálito gelado. Sem muitos agasalhos, não podiam pensar por tanto tempo. Ela foi a primeira a receber a picada de uma moradora enraivecida. O braço inchou logo após uma dor infernal. A careta da máscara triste do teatro. Um aviso para dar meia volta e sair dali o quanto antes. Nuvens imensas cobriam a lua chorosa e magra, tirando o pouco da luz que restava ao campo de abelhas fabricantes e nervosas. As lanternas já tinham suas pilhas fracas, projetando luz mirrada. Não pensaram duas vezes e retomaram a estrada.
Não tinham ideia de quantos quilômetros ainda faltavam para encontrar a velha casa da cachoeira. Diziam que lá era o paraíso daqueles que procuram descanso e esquecimento das agruras terrestres. O som das águas era manso. Um mantra. A casa era velha, mas era limpa, sempre de portas abertas, sempre vazia. Uma pessoa misteriosa cuidava de tudo e não permanecia no local. Fascinantes águas profundas. Era preciso que apertassem o passo antes que a ampulheta lhes desse outro calote. A luz fraca os boicotava. A sorte era a estrada quase reta, sem encruzilhadas torturantes. O vento minguado da lua apertava. Voltar para as abelhas era um plano já descartado.
Depois de quase duas horas de areia de ampulheta eles avistaram o fim da estrada. Talvez ainda faltasse mais meia hora de caminhada. Os dois mostravam cansaço visível no rosto, contudo, dentro do coração, a alegria dava saltos circenses. A casa do aconchego com cachoeira de mantra se aproximava com sua chaminé quente. Entre as imaginações do que estava por vir, o clarão da lua minguada é cortado por um uivo sangrento. Estacados, eles se congelaram até as têmporas. Um uivo largo, dolorido, indescritível. Imaginaram ser fruto da mente cansada de tantos passos desde o amanhecer. Ficaram parados por alguns minutos de areia de ampulheta em meio à estrada. Ignorando o susto, continuaram. Dali a pouco, mais um uivo, que agora parecia ser uma mescla de dor e raiva. Igualmente indescritível. Os corpos ficaram fincados na estrada por largas voltas do relógio. Agora não era imaginação. As têmporas latejavam. Estavam próximos da casa aconchegante, vigiada por um ser misterioso. O uivo vinha de detrás das árvores, pelos caminhos que já haviam feito. Tentaram mais uma vez continuar os passos. O uivo rasgou o silêncio com um tom mais forte e ameaçador. Estavam perdidos. Não conseguiam avistar nada. Nenhum lobo. A decisão foi rápida. Voltar. Aquilo era um aviso da cachoeira do mantra, que aniquila as agruras terrestres. Correram em direção contrária, rumo às abelhas raivosas. A poucos metros dali, no final da estrada, a casa continuava com sua chaminé ininterrupta. À soleira da porta, um cachorro enorme se aconchegava sobre o tapete verde-água.

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