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A máscara da girafa

Tinha os pés cansados como saídos de um atoleiro. A cabeça não comportava mais as ideias saltitantes. A mente agora pairava no ar. Queria descanso, conforto, comida, banho quente. Andar todos os dias entre um zilhão de gente. Gente distraída e desconfiada. Gente desgastada e indiferente. Gente que pipocava por todos os lados e feria como água quente. Um mundo inteiro a ser percorrido. Mas as ideias o cansavam. Daí, deletou todas, todas, todas. Tudo o que era novidade. Tudo o que cheirava a tinta fresca. Envergado pela derrota. Zerado. Cansara-se, como nunca antes. Sapatos furados já encharcados da chuva do dia anterior. A barba por fazer há meses. O odor de graxa que não saía das mãos. Mesmo depois de caminhar por dias e mais dias. As tardes ensolaradas não eram mais observadas. A vida perdia o vigor. O sol engolido por prédios enormes todo santo dia. Às vezes a bolota incandescente se resfriava na garoa e sumia feito fumaça magra atrás do arranha-céu. Observou tanto tempo a vida em silêncio que esquecera-se do timbre da própria voz. Disseram-lhe uma vez que tinha voz de trovão. E que isso combinava com seus olhos negros. Mas isso tinha sido há tanto tempo que nem se lembrava mais da mulher que havia reparado nele. Ele que sempre andava calado, com tão poucas companhias. Sempre fora de companhias ralas. Ninguém suportava suas ideias altas. Daí, ele as calou. Dentro de um calabouço curto cheio de crocodilos. Ele mesmo construíra a armadilha. Ele mesmo um dia quase caíra nela. Descuidado, apesar de tão alto, com olhos negros e voz de trovão. Encostado no poste da esquina, tentava se lembrar da última casa onde havia morado. Fez força, mas não conseguiu. Um nó-de-marinheiro bem feito. Sem saída. Ele era um homem sem âncoras agora. Maltrapilho, mas do mundo. Um mundo de três ruas e uma avenida. Mas um mundo imenso sem regras. Teria que trocar os sapatos molhados. Estava com frio. Anoitecia. Hoje ele não observou o sol amarelar no poente. Era sempre a mesma coisa. As constelações também todos os dias eram iguais. Sabia que todos os dias o céu se movia sempre um pouco mais pra esquerda. Mas as estrelas eram iguais há zilhões de anos. Como a voz de trovão, que ele odiava. Havia prometido andar um pouco mais esta noite. Acrescentar ruas novas ao seu vasto mundo. Ainda conseguira se lembrar há pouco que a mulher que dissera sobre sua voz e seus olhos era mais alta que ele. De fala mansa e muito bondosa. Todos diziam que ela era muito sensata. Não era bonita, mas era sensata. Não se recordava dos traços precisos em seu rosto. Quem sabe um dia a memória viria sem máscaras de carnaval. O mundo era um baile, cansativo e atordoante. Ele estava cansado. Com os pés frios. Com a garganta seca. Com o estômago vazio. Sentia falta daquele tempo em que imaginava que o mundo era bonito e manso depois da última cerca que conseguia avistar. Ninguém nunca conseguira definir o que era o mundo para ele. Engoliu a voz. Secou as ideias. Os pés ainda úmidos. O sol estilhaçado dormia no oriente. Ele adormecera depois de vagar por horas. Sonhou com a mulher sensata que um dia reparara em seus olhos de carvão. Ela era alta, e o sol ofuscava seu rosto. Ele sempre ralo, miúdo, à esquerda. Não conseguia avistar seus olhos. Mascarada em um baile de carnaval, como todas as noites, da cidade grande.

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