Bateu a porta e se foi. Chapéu na mão e ideias definidas. Franzino e decidido. Daria muitas voltas ainda. Sentiria falta dos perfumes de mexericas, da cama arrumada e do pão amassado de pouco. Ela, toda pequena e de olhos arregalados, não saía de perto do fogão à lenha. Cabelos enfumaçados e vestido amarelo com barra preta de tanto passar a mão de cinzas. Feito um passarinho frágil, viu o José Fulgêncio, o Pintassilgo, bater a porta. Um suspiro subiu do estômago e espetou o coraçãozinho. Mas não o deixou escapar pelas narinas. Era nova para ter suspiros. Deveria só aspirar o pó da lenha cozida. Orelhas em pé, como gato-do-mato. Ouvia todos dizerem que Pintassilgo era muito arrogante. Queria sempre as coisas do seu jeito. Ninguém poderia contrariá-lo. Diziam todos com seus chapéus ensebados, pitos acessos e gestos com mãos sujas. Mariinha, toda borboleta, não estava nem aí para nenhum deles. Feios e sujos. Escutava as conversas todas sem nem ter copo de vidro grudado na parede. Ninguém a reparava no vestido amarelo imundo. Até quando o café estava ruim as pragas iam todas para a lenha. Rodopiavam no fogo e se desmanchavam na chaminé. Ela era invisível, esquálida e empoeirada. Ratazana completando o grupo que sempre rodeava o fogão quando o calor esmorecia à noite e os sapos coaxavam. Dormia sem perigos no quartinho dos fundos. Nem cadeado precisava. Enquanto batia a mão no vestido para limpá-la e mexer na panela ainda ouviu o último que saiu da cozinha dizer que Pintassilgo era um fracote de pernas bambas. Dali a pouco voltaria para tomar café e se esconder na aba do chapéu amassado.
Isso não aconteceu. Pintassilgo sumiu três dias e três noites. Apressado bateu à porta de Mariinha no meio da madrugada. Morrendo de susto abriu. Ele cheirava mal e pediu para que ela guardasse um saco para ele. Estava pesado e ela o empurrou com o pé para debaixo da cama. Quando voltou para falar com ele, era só breu. Ainda escutou com as orelhas de gato-do-mato um barulho longe nas folhagens das bananeiras cortadas. Ele haveria de voltar e o suspiro saiu pela boca com vontade e ruído. E seria no meio da madrugada, batendo na sua porta com punho de macho. Adormeceu Mariinha sonhando até despertar no dia seguinte com o vestido amarelo surrado, assoprando lenha úmida, difícil de pegar fogo. Não mexeu nadinha no embrulho do Pintassilgo. O que importava para ela era o seu olhar pequeno e preto de passarinho afugentado. Freou o suspiro na garganta. Um sujismundo já pedia café com voz deseducada. O sumiço de Pintassilgo foi assunto que se apagava dia a dia na cozinha. Mariinha não se afligia. Sabia que ele voltaria para pegar o saco pesado. Não contaria a ninguém da visita. Era borboleta mirrada desacreditada. As pragas pulavam as lenhas e se desfaziam no ar com a fumaça escura.
Com a tempestade o dia terminou mais cedo na cozinha. Mariinha sem seu ofício era vela apagada no escuro. Voltou para o quartinho e pôs lata de azeite aparando a goteira perto da porta. Chovia água morna. Deitou na cama dura com os joelhinhos para cima. O vestido ensebado escorregou pelas coxas finas. Pensava nos olhos de passarinho dele. Nem se lembrava do saco escondido debaixo da cama. Cochilou e sonhou com Pintassilgo alisando seus cabelos enfumaçados de lenha. No sonho ela estava mais bonita, mais gorda, antes ainda das tosses e do quartinho frio. Ele abria o saco escondido debaixo da cama, revolvia a terra e tirava de lá um anel dourado grosso. Era para Mariinha. Ela suspirou com força diante dele. O suspiro deu cambalhotas no ar e sumiu como grilo miúdo. Ela sorria um sorriso que vinha com força do peito. Escutou batidas na porta. Abriu os olhos assustados e foi atender. Chutou sem querer a lata de azeite esparramando água. Antes de abrir a porta ainda escutou um barulho de casco de cavalo. Pintassilgo empurrou a porta e arrastou o saco escondido para a luz do quartinho. Sem nem olhar nos olhos da borboleta, montou no cavalo e saiu sem palavra alguma. Ainda de relance Mariinha viu a perna grossa de uma mulher vestida de azul. Não ouve barulho de folhagem de bananeira cortada. O suspiro saiu do estômago, espetou o coraçãozinho, e se desmancharia no calor da lenha pelos próximos dias.
Isso não aconteceu. Pintassilgo sumiu três dias e três noites. Apressado bateu à porta de Mariinha no meio da madrugada. Morrendo de susto abriu. Ele cheirava mal e pediu para que ela guardasse um saco para ele. Estava pesado e ela o empurrou com o pé para debaixo da cama. Quando voltou para falar com ele, era só breu. Ainda escutou com as orelhas de gato-do-mato um barulho longe nas folhagens das bananeiras cortadas. Ele haveria de voltar e o suspiro saiu pela boca com vontade e ruído. E seria no meio da madrugada, batendo na sua porta com punho de macho. Adormeceu Mariinha sonhando até despertar no dia seguinte com o vestido amarelo surrado, assoprando lenha úmida, difícil de pegar fogo. Não mexeu nadinha no embrulho do Pintassilgo. O que importava para ela era o seu olhar pequeno e preto de passarinho afugentado. Freou o suspiro na garganta. Um sujismundo já pedia café com voz deseducada. O sumiço de Pintassilgo foi assunto que se apagava dia a dia na cozinha. Mariinha não se afligia. Sabia que ele voltaria para pegar o saco pesado. Não contaria a ninguém da visita. Era borboleta mirrada desacreditada. As pragas pulavam as lenhas e se desfaziam no ar com a fumaça escura.
Com a tempestade o dia terminou mais cedo na cozinha. Mariinha sem seu ofício era vela apagada no escuro. Voltou para o quartinho e pôs lata de azeite aparando a goteira perto da porta. Chovia água morna. Deitou na cama dura com os joelhinhos para cima. O vestido ensebado escorregou pelas coxas finas. Pensava nos olhos de passarinho dele. Nem se lembrava do saco escondido debaixo da cama. Cochilou e sonhou com Pintassilgo alisando seus cabelos enfumaçados de lenha. No sonho ela estava mais bonita, mais gorda, antes ainda das tosses e do quartinho frio. Ele abria o saco escondido debaixo da cama, revolvia a terra e tirava de lá um anel dourado grosso. Era para Mariinha. Ela suspirou com força diante dele. O suspiro deu cambalhotas no ar e sumiu como grilo miúdo. Ela sorria um sorriso que vinha com força do peito. Escutou batidas na porta. Abriu os olhos assustados e foi atender. Chutou sem querer a lata de azeite esparramando água. Antes de abrir a porta ainda escutou um barulho de casco de cavalo. Pintassilgo empurrou a porta e arrastou o saco escondido para a luz do quartinho. Sem nem olhar nos olhos da borboleta, montou no cavalo e saiu sem palavra alguma. Ainda de relance Mariinha viu a perna grossa de uma mulher vestida de azul. Não ouve barulho de folhagem de bananeira cortada. O suspiro saiu do estômago, espetou o coraçãozinho, e se desmancharia no calor da lenha pelos próximos dias.
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