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'Trecho II'

(...)
Com as mãos congeladas, Soraia esfrega os olhos negros e arregalados. Precisa verificar se as janelas do apartamento estão abertas ou não. Indícios de presença humana. O sol forte de quase meio-dia a atrapalha. Abre e fecha os olhos com força para varrer os excessos de dúvida. As persianas a confundem. Depois de quase cinco minutos, Soraia tinha a certeza das janelas fechadas. Sem notar, atravessava a rua em direção à entrada do prédio, mas seu cérebro dava o aviso do engano. Ele podia estar em casa com todas as janelas fechadas. O que era raro. A necessidade do dinheiro a fez apertar o passo. Subiu cinco lances de escada. A cada degrau, um gosto estranho lhe subia pela garganta. Um gosto de água suja, um pouco amarga. O estômago deu reviravoltas ao lembrar dos olhos negros do guepardo. Buscou as chaves em um dos bolsos da saia longa surrada. A que abria a porta do apartamento já estava separada entre os dedos de unhas curtas, enterradas na própria carne. Pálida, Soraia sentia as pernas tremerem. Restava apenas atravessar o corredor. Restava apenas atravessar o pouco de coragem que ainda tinha dentro do peito magro, cheio de costelas vivas. Imaginou ainda em seu cérebro de curtas ações-e-reações a possibilidade de ele estar ou não em casa. Como seria se estivesse, como seria se não estivesse. Nada de polícia ou gritos. Ninguém podia saber de nada. O caso era grave. Inacreditável. A necessidade dos dois últimos pagamentos quase intactos na gaveta da cômoda reverberava dentro dos ossos do crânio. Soraia ficou estacada no final do corredor por muitas viradas de ampulheta, com areia fina escorrendo pelo ralo.
A precisão do dinheiro ditou o último lance. Cambaleando de susto, ela caminha vagarosamente e para em frente ao 511. Com a chave separada há largos minutos entre os dedos, ela a gira na fechadura e abre a porta de uma só vez. O cheiro de eucalipto ainda estava no ar. Desinfetantes instalados em todos os poros de todas as paredes. Paralisada no porta da sala por mais inúmeras viradas de ampulheta. Em silêncio, buscava qualquer ruído no interior do apartamento. Sem ouvir nada, avançou em pequenos passos cuidadosos, como se pisasse em brasas. Cruzou a sala sem olhar para o chão, onde ficou caída após o salto indescritível do guepardo. O odor de eucalipto ficou mais forte quando passou em frente ao banheiro. Instintivamente entrou para conferi-lo. Tudo intacto, como se ninguém tivesse entrado ali desde o dia anterior. A mancha na banheira perdurava. Os brilhos faiscantes de diamante da privada também. Ao entrar em seu quarto, Soraia corre até a cômoda e confere se o dinheiro está lá no fundo da segunda gaveta. Pelo volume das notas, ela conclui que ele não mexeu em nada. Com o coração ainda aos saltos, tenta escutar se há mais alguém em casa. Depois de conferir o silêncio, mas sem conferir o restante dos cômodos, Soraia pega um pequeno embrulho no fundo da primeira gaveta. Um pequenino artefato enrolado em um pano marrom. Soraia não o abre. Sente a goela arder. Um grito se estaciona em suas cordas vocais. Em uma sacola plástica reúne o embrulho e o dinheiro. O corpo está cansado. As pálpebras pesam como chumbo. A areia do tempo escorre mansa e rala. Ele poderia voltar. Seus planos estariam jogados em poço fundo. Soraia se levanta da cama e de seus pensamentos. 
(...)
- Trecho do livro que escrevo -

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