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'Trecho I'


(...)
Ela se despediu dele com um sorriso magro de estátua. Ele a ajudou a arrastar a amiga até o táxi. Prometeram um ao outro um novo encontro, naquele mesmo lugar. Elas se foram e ele ficou pensativo. O vestido azul medonho o atordoou. Mas o corpo dela, reto e limpo, emoldurado por cabelos finos castanhos, o aprisionou. Voltara ao apartamento pequeno e alugado cheio de observações e medidas. Ficaria assim até o próximo encontro, matutando, como era de costume. Matutava sobre tudo o que via ou ouvia. Gastava sinapses cerebrais até chegar a lugar algum. Não mudava de hábito há quarenta anos. As sinapses estavam desbotadas como lençóis velhos no varal.O segundo encontro aconteceu em menos de uma semana. A amiga bebedora de copos infernais não era mais sua companhia de festas. Naquele dia recusara-se a pagar o táxi. Nunca mais se falaram. Agora ela não usava vestido medonho. Estava de calça jeans e blusa verde com um broche de pássaro dourado. Os cabelos lindos e perfumados. Estava simples como uma estátua. Ao final deste encontro se beijaram, depois de muita areia de ampulheta passando pelo gargalo. Um beijo seco de estátua. Sem sabor. Gelado. Era o que ele esperava. Paixão percorrendo pelas veias do coração. Paixão mansa controlada pelo termômetro, sem sair dos eixos. Ela era um lago plácido, uma tarde de outono no parque de relva verde, um caqui sem doce, mas sem cica. Encontravam-se toda semana. Davam voltas pelas ruas imundas da metrópole. Porém, seus corações, mentes, roupas e pés eram limpos. Eram dois pontos brancos puríssimos circulando pela cidade. Eram mármores que se completavam.
(...)
 - Trecho do livro que escrevo - 

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