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Sonho nevado

Era difícil manter os pacotes de farinha todos empilhados na última prateleira. Para quem tem baixa estatura, o mundo é uma escada longa e malvada. Cada degrau sujo de farinha ainda deveria ser limpado naquela tarde pela Dona Flanézia, que apesar das inúmeras vassouradas diárias não emagrecia um pontinho na balança. Beliscava os casadinhos do confeiteiro todos os dias. Tarefa escondidinha. Delícia. Tirar farinha grudada no cimento não era mole não. Toda tarde era o momento mágico de cheirar recheio doce de sonho e sonhar com as aparas dos biscoitos recém-assados.
O saco de farinha despencou hoje da última prateleira. Estourou e tudo ficou brancamente fantasmagórico. Para quem é de baixa estatura, a vida é uma aventura everestiana. Pó branco para todo o lado. Tristeza de ver ingrediente desperdiçado. Tristeza de imaginar o patrão xingando. Tristeza de presenciar Dona Flanézia com pá e vassoura, com cara de cachorro brabo. Dia de azar enfarinhado este. O confeiteiro faltou pela gripe infernal. Não queria coriza nos doces. Dona Flanézia estava de mau humor por não poder passar o dedo na cobertura de chocolate do bolo. Não tinha morango mais ou menos mofado para comer. Esses não entravam na receita. Mas a salgadeira Luzinha não era tão zelosa como o confeiteiro Dedi. Usava presunto meio passado para o recheio do enrolado enorme que dava água na boca na vitrina. Se rodela de tomate escapava para o chão, passava na torneira e ia para o recheio. Durante a pressa, nem isso.
Farinha recolhida pela Dona Flanézia, que não passou creme amarelo de sonho no beiço. Tristeza. Amanhã seria melhor, sem farinha nos degraus espalhada pela estabanada que não alcança a prateleira e tem preguiça de puxar a escada de metal. Muitos 'degrais' que davam vertigem. O dia para quem tem baixa estatura parece um calendário comprido sem fim. Nada se resolve como manteiga que certamente se derrete ao fogo. Preguiça de puxar a escada deve ser eliminada. Assim como as provinhas escondidas com dedo sujo daqui e dali de Dona Flanézia. É desse jeito que um estabelecimento não vai para frente. Mussarelas esverdeadas para os pastéis que mergulharão no óleo reciclado de cinco meses atrás.
Quando o Dedi voltou, a pedra de abrir rocambole estava encardida. Dona Flanézia já explicou que pedra porosa não se limpa fácil. Que diferença poderia fazer um pontinho de sujeira aqui e outro lá? O pastel que escapulira para o chão, ainda não varrido, foi assoprado e dava giros na gordura fervente diante de Luzinha. Todas as bactérias estariam mortas em breve. Não há nada que resista a temperaturas altas. Nem as formigas dentro da água quente.
Sonhos prontos sem coriza. Não deu para Dona Flanézia provar o recheio passando o indicador, escondidinho. Que dia amargo. Para completar, um saco de farinha acabou de explodir no chão. Uma bomba de poeira de trigo. Estilhaços em todos os degraus. Para quem tem estatura baixa os atos falhos se repetem toda vez que a escada longa balança seus medos. Prejuízo. Os sonhos ficaram nevados. Cobertinhos, cobertinhos.

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